(continuação de "O quadro-negro da praça")
A feira da Vila Sossego tem um sino pendurado na entrada e uma regra antiga: se o painel das ações despenca 10% de uma vez, o sino toca e o pregão para por meia hora, para os comerciantes respirarem. Ninguém na vila ouvia o sino desde março de 2020. Na segunda-feira ele tocou às 9h57.
Na semana anterior, como contei aqui, a feira tinha comprado o giz dos apontadores. O painel fechou a sexta em 205 mil pontos, e a nota verde, a R$ 4,99. Quando a urna deu o resultado oposto ao do giz, a conta chegou toda de uma vez. O painel fechou a segunda em 176.608 pontos, queda de 13,88% (cerca de 28 mil pontos a menos num único dia). O trocador de moedas da praça subiu a nota verde mais de 8%, a quinta maior alta diária desde o Plano Real. Passaram de 8 milhões os negócios fechados, recorde de um dia. Uns oito papéis terminaram no azul, quase todos de exportadores, que ganham quando a nota verde sobe: a de celulose subiu 10%, a de aviões quase 9%, a mineradora 4%. Entre os que mais caíram, um grande banco público perdeu 29%, uma loja de departamentos 58% e a própria dona da feira, mais de um terço.
O dinheiro emprestado encareceu junto. O contrato de juros para janeiro de 2029, que valia perto de 12,6% na sexta, fechou a 15,25%. O seguro contra calote da vila subiu 26%, a 151,6 pontos, o maior valor desde julho do ano passado. O tesoureiro da vila foi ao mercado recomprar títulos e gastou cerca de R$ 7,1 bilhões para segurar a escalada.
Na terça a nota verde recuou 1,07% e o painel perdeu mais 0,51%. Dona Selita falou na coletiva do dia: não comenta eleição nem a reunião da semana seguinte, e só mexe no câmbio quando o balcão desanda de verdade. O administrador do cofre prometeu um projeto de lei complementar para buscar o centro da meta fiscal deste ano, um saldo positivo de 0,25% da renda anual. Não deu detalhes nem prazo.
Na quarta, do outro lado da cerca, seu Trombone manteve o juro em 3,75% a 4%, mas por 10 votos a 2: dois sócios queriam subir um quartinho. O comunicado falou em inflação elevada e deixou a porta aberta para novas altas. Na quinta, a inflação americana de doze meses apareceu em 3,6%, uma gigante de tecnologia chegou a perder mais de 10% no pregão por causa do caixa apertado pela compra de chips, e o painel de cá terminou o dia em 169 mil pontos, o menor valor desde 20 de agosto, quarta queda seguida. Um assessor de investimentos disse que o governo não trata a despesa como prioridade e pensa em arrecadar mais, citando o IOF como exemplo. O secretário do Tesouro negou que se discuta cobrar IOF das letras de crédito, e acrescentou que não há medida na mesa por ora.
Na sexta o painel fechou em 167.922 pontos, queda de 18,12% na semana, a maior desde março de 2020. A nota verde, a R$ 5,446, marcou a maior cotação do ano, com alta de cerca de 9% em cinco dias. Outubro terminou com queda perto de 9,8% no painel, ainda que no ano ele continue 4,2% acima de onde começou. Saiu também a taxa de desemprego da semana: 5,2%.
O candidato que perdeu disse, ainda no domingo, que pediria a anulação da votação. Nas reportagens que li, o pedido não tinha sido protocolado, e ministros da Corte eleitoral avaliam, reservadamente, que ele não deve prosperar. A diferença entre os dois foi de cerca de 4,4 milhões de votos; os registrados depois das cinco da tarde, hora do fim original, somam 35.521, segundo um levantamento da imprensa com dados da Corte.
Seu Deca e Dona Nicinha olharam tudo da praça sem dizer nada. O quadro-negro, nesta semana, ganhou uma terceira cor: a do painel.
Na sexta, um dos grandes bancos da vila revisou o cenário: crescimento de 2027 cortado de 1,2% para 0,5%, inflação de 2027 subindo de 4,6% para 6,1%, nota verde a R$ 5,40 no fim do ano e Selic parada em 13,75% até o fim de 2027, com pausa já na reunião de Dona Selita, marcada para 3 e 4 de novembro. Entre os motivos, o banco lista o fim do subsídio ao diesel, a volta do PIS/Cofins sobre a gasolina e mudanças na jornada, que podem encarecer a mão de obra. É a mesma jornada que Seu Tico já faz conta para aplicar, com prazo até meados de dezembro. A feira fecha na segunda-feira, Finados, e reabre na terça, dia 3.
Quid inde? O giz errou no sábado e a feira pagou na segunda, com juros e com sino. Fica uma pergunta que o sino não responde: o painel caiu 18% em cinco dias porque o resultado era pior do que a feira esperava, ou porque ela tinha apostado alto demais no resultado oposto? Quem comprou o giz de véspera jura que foi a primeira hipótese. A distinção só aparece quando o administrador do cofre disser o que vai fazer com a meta, e até sexta ele não tinha dito.
* Livre alegoria sobre a semana de 25 a 31 de outubro de 2026, a primeira depois do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, em que o presidente candidato à reeleição foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do desafiante, resultado contrário ao que o mercado precificava. Na segunda-feira (26/10), o Ibovespa acionou o circuit breaker às 9h57 (primeira vez desde março de 2020, com suspensão de 30 minutos) e fechou em 176.608,23 pontos (−13,88%, perda de 28.474 pontos), com mais de 8 milhões de negócios, recorde diário. O dólar comercial subiu cerca de 8,2% (de 8,21% a 8,25% e, em outra fonte, 8,36%, conforme o horário e o critério), a R$ 5,403 a R$ 5,407, a quinta maior alta desde o Plano Real; o contrato de DI para janeiro de 2029 fechou a 15,25% (+2,655 pontos percentuais, ante cerca de 12,6% na sexta) e o CDS de 5 anos subiu 26%, a 151,6 pontos, o maior nível desde julho de 2025. Cerca de oito ativos fecharam em alta (a fonte fala em oito no texto e em sete em atualização intradiária), entre eles Suzano (+10,08%), Embraer (+8,89%) e Vale (+4,01%); entre as maiores quedas, Banco do Brasil (−29,33%), Magazine Luiza (−58,23%) e B3 (−36,28%). O Tesouro recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados (outra reportagem fala em cerca de R$ 10 bilhões, somando outros papéis). Na terça (27/10), o dólar caiu 1,07% (R$ 5,3488) e o Ibovespa, 0,51% (175.710 pontos); o presidente do Banco Central disse que a instituição não comenta eleição nem o Copom e atua no câmbio apenas em caso de disfuncionalidade, e a Fazenda anunciou que enviará projeto de lei complementar para buscar o centro da meta fiscal de 2026 (superávit primário de 0,25% do PIB), sem detalhar medidas ou prazo. Na quarta (28/10), o Fed manteve a taxa em 3,75%–4,00% por 10 votos a 2 (dois dirigentes preferiam alta de 0,25 ponto), com comunicado indicando inflação elevada e possibilidade de novas altas. Na quinta (29/10), o Ibovespa caiu 1,06% (169.186,42 pontos, menor nível desde 20/08, quarta queda seguida; −17,50% na semana até então) e o dólar subiu 0,89% (R$ 5,387); o PCE americano marcou 3,6% em 12 meses; as ações da Alphabet chegaram a cair mais de 10% no pregão, e o Nasdaq recuou mais de 1%, com preocupação com o caixa de empresas de IA; um assessor de investimentos de uma casa de análise disse que o governo não trata a despesa como prioridade, e o secretário do Tesouro negou que o governo discuta cobrar IOF de LCI, LCA, CRI e CRA, afirmando que não há medida colocada no momento. Na sexta (30/10), o Ibovespa fechou em 167.921,80 pontos (−0,75% no dia, −18,12% na semana, a pior desde março de 2020; outubro: −9,75% a −9,88%, conforme a fonte; no ano, +4,22%) e o dólar em R$ 5,446 (+1,09% no dia, +9,07% a +9,15% na semana, conforme a fonte, maior cotação de 2026). A taxa de desemprego divulgada na semana foi de 5,2% (período de referência não conferido nas fontes consultadas). Uma revisão de cenário de um grande banco, datada de 30/10, cortou o PIB de 2027 de 1,2% para 0,5%, elevou o IPCA de 2027 de 4,6% para 6,1%, projetou dólar a R$ 5,40 no fim de 2026 (antes, R$ 5,30) e Selic em 13,75% ao longo de 2027, com pausa já na reunião de 3 e 4 de novembro; cita o fim da subvenção ao diesel, a volta do PIS/Cofins sobre a gasolina, mudanças na jornada de trabalho (sem usar o termo "escala 6x1"), o prêmio de risco doméstico e incertezas fiscais. A B3 não funciona em 2/11 (Finados). O candidato derrotado anunciou em 25/10 que pretende pedir a anulação da eleição, alegando a prorrogação do horário de votação; segundo as reportagens consultadas, o pedido não havia sido protocolado, integrantes do TSE avaliavam reservadamente que não deveria prosperar, a diferença foi de cerca de 4,4 milhões de votos e 35.521 votos foram registrados após as 17h (levantamento do g1 com dados do TSE, sem verificação independente aqui). As cotações de fechamento diferem ligeiramente entre as fontes consultadas.
Fontes:
- Ibovespa encerra semana pós-eleição com perda de 18%; dólar vai a R$ 5,44
- Ibovespa apaga ganhos e fecha outubro com queda de 9,88%; dólar sobe 5,22%
- Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8%
- Dólar e juros futuros devolvem partes dos ganhos da véspera; Ibovespa recua
- Ibovespa tem quarta queda seguida, com exterior, balanços e fiscal; dólar dispara
- Fed mantém taxa de juros enquanto aguarda por mais dados sobre inflação
- Fazenda promete medidas para atingir centro da meta fiscal
- BC não comenta eleições nem Copom, diz Galípolo
- Itaú reduz previsão de crescimento do PIB para 0,5% em 2027
- Como os mercados vão abrir nesta segunda após a reeleição de Lula?
- Flávio não reconhece resultado da eleição e diz que pedirá anulação ao TSE
- Ministros do TSE avaliam que pedido de Flávio Bolsonaro para anular eleição não deve avançar