(continuação de "Dois dias de folga pro Seu Tico")
Sábado à tarde, a praça da Vila Sossego parecia dia de leilão. Seu Deca, Dona Nicinha e mais três apontadores subiram no coreto, um de cada vez, para ler o que tinham anotado na última volta pela feira. Dona Nicinha leu primeiro: 51 a 49 para o desafiante, em votos válidos, com dois pontos de margem. Seu Deca leu o mesmo 51 a 49, e acrescentou que, contando brancos e indecisos, a conta era 46 a 45. O terceiro caderno dava 50,8 a 49,2; o quarto, 50,7 a 49,3; o quinto, 52 a 48. Cinco cadernos, cinco vezes o desafiante na frente, todas dentro ou no limite da margem de erro.
A história por trás desses números tem curva. O caderno do terceiro apontador, que na virada de setembro para outubro dava ao presidente quase três pontos de vantagem, agora dá ao desafiante pouco mais de um ponto e meio. Dona Nicinha, na quinta-feira, ainda marcava empate em 50 a 50. Na sexta ela escutou o debate como todo mundo e, no sábado, voltou com 51 a 49. Ninguém na vila sabe dizer se foi o debate, o cansaço ou a conversa de balcão. No primeiro domingo, três semanas atrás, os cadernos tinham errado por entre dois e cinco pontos o número do mesmo desafiante, e a praça não esqueceu. Quem lê um 51 a 49 hoje lê também o que aconteceu da última vez.
O debate foi na sexta, na fogueira maior, com a TV da vila ligada em todas as casas. Falou-se de salário mínimo, e os dois disseram que o reajuste fica acima da inflação. O desafiante propôs que o banco público da vila compre as dívidas de famílias e empresas com os bancos privados; o presidente respondeu com o programa de renegociação que já existe. Falou-se do peso do imposto sobre a renda, da tarifa zero no ônibus de fim de semana (o desafiante disse que apoia a ideia do outro) e das apostas on-line, que um quer proibidas e o outro diz que o governo deixou crescer. Houve também troca de acusações pessoais, que ficam fora desta crônica.
Do lado dos preços, Dona Selita recebeu na sexta a prévia do mês: 0,32% em outubro, abaixo dos 0,43% que a feira esperava. O acumulado em doze meses ficou em 4,62%, ainda acima do teto de 4,5%, mas abaixo dos 4,73% projetados. A conta de luz caiu 0,89% (bandeira verde), as passagens aéreas recuaram 9,24%, e o que subiu foi a comida: 0,88% no mês, 1,01% a comida que se faz em casa. Combustível, mais 1,20%. O poço lá longe tem culpa: o barril fechou sexta a US$ 116,72, maior valor em seis meses, depois de novos ataques e ameaças no vale. Dona Selita decide em 3 e 4 de novembro, e a feira aposta em mais um corte de um quartinho, para 13,50%. Seu Trombone decide na semana que vem, do outro lado da cerca, com o barril nesse preço.
A feira terminou a semana quase onde começou. O painel das ações fechou em 205.083 pontos, queda de 0,17% no acumulado, e a nota verde caiu 0,90% no dia, para R$ 4,993, o primeiro fechamento abaixo de cinco reais desde 12 de outubro. Um analista ouvido na cobertura atribuiu o ânimo de sexta a uma pesquisa de mais de 15 mil entrevistados que dava o desafiante na frente, e lembrou que o mesmo instituto tinha ficado perto do resultado do primeiro turno. A feira lê cada caderno como notícia de cofre. Na sexta, ela leu um caderno só.
No Conselho dos Anciãos, a semana foi curta. O chefe da vila sancionou na quarta a lei das marmitas: Dona Cidinha e os outros microempreendedores deixam de dever à União o que acumularam até 13 de outubro, o teto de faturamento chega a R$ 140 mil em 2028 e cada um pode ter dois empregados. Desta vez saiu o custo: o governo estima renúncia de R$ 1,57 bilhão em 2027, R$ 3,15 bilhões em 2028 e R$ 3,38 bilhões em 2029, mais cerca de R$ 3 bilhões em três anos pelo perdão das dívidas. Os R$ 12,6 bilhões em dívidas citados na semana passada não batem com esse número, e as reportagens não explicam a diferença. A lei foi sancionada quatro dias antes da votação. A proposta da segurança da vila, essa, ficou onde estava: o presidente do Conselho avisou na segunda-feira que só volta ao assunto depois do segundo domingo, e as sessões da semana da eleição serão solenes. O desacordo sobre a idade em que um rapaz responde como adulto continua em aberto, com uma emenda que fala em 14 anos para crimes graves e outra em 16.
Seu Tico, entre uma fornada e outra, olhou o calendário da padaria. O prazo de sessenta dias da folga dupla corre desde a sexta-feira 16 e vence em meados de dezembro. Ele ainda não decidiu se contrata o quinto empregado.
Quid inde? Domingo à noite a urna fala, e só esse caderno vale. Quem sentar na cadeira na segunda-feira herda um barril a US$ 116, uma inflação de doze meses a 4,62% contra um teto de 4,5% e a folga de Seu Tico com data para começar. Nenhum caderno de véspera mediu isso.
* Livre alegoria sobre a semana de 18 a 24 de outubro de 2026, véspera do segundo turno das eleições presidenciais (25/10). Pesquisas divulgadas em 24/10 apontaram o candidato desafiante numericamente à frente em cinco levantamentos, todos dentro ou no limite da margem de erro: 51% a 49% em votos válidos em dois institutos (um deles com 46% a 45% nos votos totais, com campo em 23 e 24/10), 50,8% a 49,2% em um terceiro (amostra de 4.990, margem de 1 ponto, campo de 18 a 23/10; na pesquisa anterior do mesmo instituto, de 27/09 a 02/10, o presidente aparecia com 47% a 44,1%), 50,7% a 49,3% em um quarto e 52% a 48% em um quinto. Um dos institutos registrava empate em 50% a 50% na quinta-feira (22/10). Outra pesquisa, com cerca de 15,5 mil entrevistas e margem de 1 ponto, indicava 51,3% a 48,7% em votos válidos. No primeiro turno, o desafiante teve 47,03% e o presidente 45,16% dos votos válidos. O último debate foi realizado na TV Globo em 23/10. O IPCA-15 de outubro subiu 0,32% (esperado: 0,43%), com acumulado em 12 meses de 4,62% (esperado: 4,73%), alimentação e bebidas +0,88%, energia elétrica residencial −0,89%, passagens aéreas −9,24% e combustíveis +1,20%. O Brent fechou a US$ 116,72 (+3,14%), maior nível em seis meses, em meio a tensões no Oriente Médio. O Ibovespa fechou a sexta-feira (23/10) em 205.082,56 pontos (+0,47% no dia, −0,17% na semana) e o dólar a R$ 4,993 (−0,90% no dia, −1,57% na semana), primeiro fechamento abaixo de R$ 5 desde 12/10. O Boletim Focus de 13/10 projetava corte de 0,25 ponto na Selic na reunião de 3 e 4 de novembro, para 13,50%, e o Fed tem decisão na semana seguinte. Em 21/10 foi sancionada a lei do Prospera MEI: anistia a MEIs inadimplentes com a União até 13/10/2026, teto de R$ 140 mil em 2028, até dois empregados, com renúncia estimada em R$ 1,57 bilhão (2027), R$ 3,15 bilhões (2028) e R$ 3,38 bilhões (2029) e cerca de R$ 3 bilhões em três anos pelo perdão; a estimativa de R$ 12,6 bilhões em dívidas citada na semana anterior não coincide com esse valor, e as reportagens consultadas não explicam a diferença. Em 19/10, o presidente do Senado adiou a PEC da Segurança Pública para depois do segundo turno, com impasse sobre a maioridade penal (emendas de 14 e de 16 anos para crimes graves). A Emenda Constitucional nº 141, do fim da escala 6x1, foi promulgada em 16/10, com prazo de 60 dias para a escala 5x2.
Fontes:
- Dólar fecha a R$ 4,993 antes do 2º turno; Ibovespa sobe 0,47%
- Ibovespa sobe com perspectiva de vitória de Flávio e dólar fecha abaixo de R$ 5 antes do 2º turno
- Lula x Flávio: o que dizem as últimas pesquisas na véspera da eleição
- Quaest confirma Datafolha: Flávio tem 51% e Lula, 49%
- AtlasIntel divulga pesquisa para presidente na véspera do 2º turno
- Debate da Globo: veja como foram Lula e Flávio e os principais embates
- "Prévia da inflação": IPCA-15 sobe 0,32% em outubro, diz IBGE
- Boletim Focus de 13/10/2026
- A 4 dias da eleição, Lula sanciona lei que prevê perdão de dívidas e aumento do teto de faturamento para MEI
- Alcolumbre adia PEC da Segurança para após o segundo turno
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