sábado, outubro 31, 2026

O sino da feira tocou na segunda (e o painel não parou de descer)*

 

(continuação de "O quadro-negro da praça")

A feira da Vila Sossego tem um sino pendurado na entrada e uma regra antiga: se o painel das ações despenca 10% de uma vez, o sino toca e o pregão para por meia hora, para os comerciantes respirarem. Ninguém na vila ouvia o sino desde março de 2020. Na segunda-feira ele tocou às 9h57.

Na semana anterior, como contei aqui, a feira tinha comprado o giz dos apontadores. O painel fechou a sexta em 205 mil pontos, e a nota verde, a R$ 4,99. Quando a urna deu o resultado oposto ao do giz, a conta chegou toda de uma vez. O painel fechou a segunda em 176.608 pontos, queda de 13,88% (cerca de 28 mil pontos a menos num único dia). O trocador de moedas da praça subiu a nota verde mais de 8%, a quinta maior alta diária desde o Plano Real. Passaram de 8 milhões os negócios fechados, recorde de um dia. Uns oito papéis terminaram no azul, quase todos de exportadores, que ganham quando a nota verde sobe: a de celulose subiu 10%, a de aviões quase 9%, a mineradora 4%. Entre os que mais caíram, um grande banco público perdeu 29%, uma loja de departamentos 58% e a própria dona da feira, mais de um terço.

O dinheiro emprestado encareceu junto. O contrato de juros para janeiro de 2029, que valia perto de 12,6% na sexta, fechou a 15,25%. O seguro contra calote da vila subiu 26%, a 151,6 pontos, o maior valor desde julho do ano passado. O tesoureiro da vila foi ao mercado recomprar títulos e gastou cerca de R$ 7,1 bilhões para segurar a escalada.

Na terça a nota verde recuou 1,07% e o painel perdeu mais 0,51%. Dona Selita falou na coletiva do dia: não comenta eleição nem a reunião da semana seguinte, e só mexe no câmbio quando o balcão desanda de verdade. O administrador do cofre prometeu um projeto de lei complementar para buscar o centro da meta fiscal deste ano, um saldo positivo de 0,25% da renda anual. Não deu detalhes nem prazo.

Na quarta, do outro lado da cerca, seu Trombone manteve o juro em 3,75% a 4%, mas por 10 votos a 2: dois sócios queriam subir um quartinho. O comunicado falou em inflação elevada e deixou a porta aberta para novas altas. Na quinta, a inflação americana de doze meses apareceu em 3,6%, uma gigante de tecnologia chegou a perder mais de 10% no pregão por causa do caixa apertado pela compra de chips, e o painel de cá terminou o dia em 169 mil pontos, o menor valor desde 20 de agosto, quarta queda seguida. Um assessor de investimentos disse que o governo não trata a despesa como prioridade e pensa em arrecadar mais, citando o IOF como exemplo. O secretário do Tesouro negou que se discuta cobrar IOF das letras de crédito, e acrescentou que não há medida na mesa por ora.

Na sexta o painel fechou em 167.922 pontos, queda de 18,12% na semana, a maior desde março de 2020. A nota verde, a R$ 5,446, marcou a maior cotação do ano, com alta de cerca de 9% em cinco dias. Outubro terminou com queda perto de 9,8% no painel, ainda que no ano ele continue 4,2% acima de onde começou. Saiu também a taxa de desemprego da semana: 5,2%.

O candidato que perdeu disse, ainda no domingo, que pediria a anulação da votação. Nas reportagens que li, o pedido não tinha sido protocolado, e ministros da Corte eleitoral avaliam, reservadamente, que ele não deve prosperar. A diferença entre os dois foi de cerca de 4,4 milhões de votos; os registrados depois das cinco da tarde, hora do fim original, somam 35.521, segundo um levantamento da imprensa com dados da Corte.

Seu Deca e Dona Nicinha olharam tudo da praça sem dizer nada. O quadro-negro, nesta semana, ganhou uma terceira cor: a do painel.

Na sexta, um dos grandes bancos da vila revisou o cenário: crescimento de 2027 cortado de 1,2% para 0,5%, inflação de 2027 subindo de 4,6% para 6,1%, nota verde a R$ 5,40 no fim do ano e Selic parada em 13,75% até o fim de 2027, com pausa já na reunião de Dona Selita, marcada para 3 e 4 de novembro. Entre os motivos, o banco lista o fim do subsídio ao diesel, a volta do PIS/Cofins sobre a gasolina e mudanças na jornada, que podem encarecer a mão de obra. É a mesma jornada que Seu Tico já faz conta para aplicar, com prazo até meados de dezembro. A feira fecha na segunda-feira, Finados, e reabre na terça, dia 3.

Quid inde? O giz errou no sábado e a feira pagou na segunda, com juros e com sino. Fica uma pergunta que o sino não responde: o painel caiu 18% em cinco dias porque o resultado era pior do que a feira esperava, ou porque ela tinha apostado alto demais no resultado oposto? Quem comprou o giz de véspera jura que foi a primeira hipótese. A distinção só aparece quando o administrador do cofre disser o que vai fazer com a meta, e até sexta ele não tinha dito.


* Livre alegoria sobre a semana de 25 a 31 de outubro de 2026, a primeira depois do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, em que o presidente candidato à reeleição foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do desafiante, resultado contrário ao que o mercado precificava. Na segunda-feira (26/10), o Ibovespa acionou o circuit breaker às 9h57 (primeira vez desde março de 2020, com suspensão de 30 minutos) e fechou em 176.608,23 pontos (−13,88%, perda de 28.474 pontos), com mais de 8 milhões de negócios, recorde diário. O dólar comercial subiu cerca de 8,2% (de 8,21% a 8,25% e, em outra fonte, 8,36%, conforme o horário e o critério), a R$ 5,403 a R$ 5,407, a quinta maior alta desde o Plano Real; o contrato de DI para janeiro de 2029 fechou a 15,25% (+2,655 pontos percentuais, ante cerca de 12,6% na sexta) e o CDS de 5 anos subiu 26%, a 151,6 pontos, o maior nível desde julho de 2025. Cerca de oito ativos fecharam em alta (a fonte fala em oito no texto e em sete em atualização intradiária), entre eles Suzano (+10,08%), Embraer (+8,89%) e Vale (+4,01%); entre as maiores quedas, Banco do Brasil (−29,33%), Magazine Luiza (−58,23%) e B3 (−36,28%). O Tesouro recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados (outra reportagem fala em cerca de R$ 10 bilhões, somando outros papéis). Na terça (27/10), o dólar caiu 1,07% (R$ 5,3488) e o Ibovespa, 0,51% (175.710 pontos); o presidente do Banco Central disse que a instituição não comenta eleição nem o Copom e atua no câmbio apenas em caso de disfuncionalidade, e a Fazenda anunciou que enviará projeto de lei complementar para buscar o centro da meta fiscal de 2026 (superávit primário de 0,25% do PIB), sem detalhar medidas ou prazo. Na quarta (28/10), o Fed manteve a taxa em 3,75%–4,00% por 10 votos a 2 (dois dirigentes preferiam alta de 0,25 ponto), com comunicado indicando inflação elevada e possibilidade de novas altas. Na quinta (29/10), o Ibovespa caiu 1,06% (169.186,42 pontos, menor nível desde 20/08, quarta queda seguida; −17,50% na semana até então) e o dólar subiu 0,89% (R$ 5,387); o PCE americano marcou 3,6% em 12 meses; as ações da Alphabet chegaram a cair mais de 10% no pregão, e o Nasdaq recuou mais de 1%, com preocupação com o caixa de empresas de IA; um assessor de investimentos de uma casa de análise disse que o governo não trata a despesa como prioridade, e o secretário do Tesouro negou que o governo discuta cobrar IOF de LCI, LCA, CRI e CRA, afirmando que não há medida colocada no momento. Na sexta (30/10), o Ibovespa fechou em 167.921,80 pontos (−0,75% no dia, −18,12% na semana, a pior desde março de 2020; outubro: −9,75% a −9,88%, conforme a fonte; no ano, +4,22%) e o dólar em R$ 5,446 (+1,09% no dia, +9,07% a +9,15% na semana, conforme a fonte, maior cotação de 2026). A taxa de desemprego divulgada na semana foi de 5,2% (período de referência não conferido nas fontes consultadas). Uma revisão de cenário de um grande banco, datada de 30/10, cortou o PIB de 2027 de 1,2% para 0,5%, elevou o IPCA de 2027 de 4,6% para 6,1%, projetou dólar a R$ 5,40 no fim de 2026 (antes, R$ 5,30) e Selic em 13,75% ao longo de 2027, com pausa já na reunião de 3 e 4 de novembro; cita o fim da subvenção ao diesel, a volta do PIS/Cofins sobre a gasolina, mudanças na jornada de trabalho (sem usar o termo "escala 6x1"), o prêmio de risco doméstico e incertezas fiscais. A B3 não funciona em 2/11 (Finados). O candidato derrotado anunciou em 25/10 que pretende pedir a anulação da eleição, alegando a prorrogação do horário de votação; segundo as reportagens consultadas, o pedido não havia sido protocolado, integrantes do TSE avaliavam reservadamente que não deveria prosperar, a diferença foi de cerca de 4,4 milhões de votos e 35.521 votos foram registrados após as 17h (levantamento do g1 com dados do TSE, sem verificação independente aqui). As cotações de fechamento diferem ligeiramente entre as fontes consultadas.

Fontes:

sábado, outubro 24, 2026

Cinco cadernos na véspera (e um barril a US$ 116)*

 (continuação de "Dois dias de folga pro Seu Tico")

Sábado à tarde, a praça da Vila Sossego parecia dia de leilão. Seu Deca, Dona Nicinha e mais três apontadores subiram no coreto, um de cada vez, para ler o que tinham anotado na última volta pela feira. Dona Nicinha leu primeiro: 51 a 49 para o desafiante, em votos válidos, com dois pontos de margem. Seu Deca leu o mesmo 51 a 49, e acrescentou que, contando brancos e indecisos, a conta era 46 a 45. O terceiro caderno dava 50,8 a 49,2; o quarto, 50,7 a 49,3; o quinto, 52 a 48. Cinco cadernos, cinco vezes o desafiante na frente, todas dentro ou no limite da margem de erro.

A história por trás desses números tem curva. O caderno do terceiro apontador, que na virada de setembro para outubro dava ao presidente quase três pontos de vantagem, agora dá ao desafiante pouco mais de um ponto e meio. Dona Nicinha, na quinta-feira, ainda marcava empate em 50 a 50. Na sexta ela escutou o debate como todo mundo e, no sábado, voltou com 51 a 49. Ninguém na vila sabe dizer se foi o debate, o cansaço ou a conversa de balcão. No primeiro domingo, três semanas atrás, os cadernos tinham errado por entre dois e cinco pontos o número do mesmo desafiante, e a praça não esqueceu. Quem lê um 51 a 49 hoje lê também o que aconteceu da última vez.

O debate foi na sexta, na fogueira maior, com a TV da vila ligada em todas as casas. Falou-se de salário mínimo, e os dois disseram que o reajuste fica acima da inflação. O desafiante propôs que o banco público da vila compre as dívidas de famílias e empresas com os bancos privados; o presidente respondeu com o programa de renegociação que já existe. Falou-se do peso do imposto sobre a renda, da tarifa zero no ônibus de fim de semana (o desafiante disse que apoia a ideia do outro) e das apostas on-line, que um quer proibidas e o outro diz que o governo deixou crescer. Houve também troca de acusações pessoais, que ficam fora desta crônica.

Do lado dos preços, Dona Selita recebeu na sexta a prévia do mês: 0,32% em outubro, abaixo dos 0,43% que a feira esperava. O acumulado em doze meses ficou em 4,62%, ainda acima do teto de 4,5%, mas abaixo dos 4,73% projetados. A conta de luz caiu 0,89% (bandeira verde), as passagens aéreas recuaram 9,24%, e o que subiu foi a comida: 0,88% no mês, 1,01% a comida que se faz em casa. Combustível, mais 1,20%. O poço lá longe tem culpa: o barril fechou sexta a US$ 116,72, maior valor em seis meses, depois de novos ataques e ameaças no vale. Dona Selita decide em 3 e 4 de novembro, e a feira aposta em mais um corte de um quartinho, para 13,50%. Seu Trombone decide na semana que vem, do outro lado da cerca, com o barril nesse preço.

A feira terminou a semana quase onde começou. O painel das ações fechou em 205.083 pontos, queda de 0,17% no acumulado, e a nota verde caiu 0,90% no dia, para R$ 4,993, o primeiro fechamento abaixo de cinco reais desde 12 de outubro. Um analista ouvido na cobertura atribuiu o ânimo de sexta a uma pesquisa de mais de 15 mil entrevistados que dava o desafiante na frente, e lembrou que o mesmo instituto tinha ficado perto do resultado do primeiro turno. A feira lê cada caderno como notícia de cofre. Na sexta, ela leu um caderno só.

No Conselho dos Anciãos, a semana foi curta. O chefe da vila sancionou na quarta a lei das marmitas: Dona Cidinha e os outros microempreendedores deixam de dever à União o que acumularam até 13 de outubro, o teto de faturamento chega a R$ 140 mil em 2028 e cada um pode ter dois empregados. Desta vez saiu o custo: o governo estima renúncia de R$ 1,57 bilhão em 2027, R$ 3,15 bilhões em 2028 e R$ 3,38 bilhões em 2029, mais cerca de R$ 3 bilhões em três anos pelo perdão das dívidas. Os R$ 12,6 bilhões em dívidas citados na semana passada não batem com esse número, e as reportagens não explicam a diferença. A lei foi sancionada quatro dias antes da votação. A proposta da segurança da vila, essa, ficou onde estava: o presidente do Conselho avisou na segunda-feira que só volta ao assunto depois do segundo domingo, e as sessões da semana da eleição serão solenes. O desacordo sobre a idade em que um rapaz responde como adulto continua em aberto, com uma emenda que fala em 14 anos para crimes graves e outra em 16.

Seu Tico, entre uma fornada e outra, olhou o calendário da padaria. O prazo de sessenta dias da folga dupla corre desde a sexta-feira 16 e vence em meados de dezembro. Ele ainda não decidiu se contrata o quinto empregado.

Quid inde? Domingo à noite a urna fala, e só esse caderno vale. Quem sentar na cadeira na segunda-feira herda um barril a US$ 116, uma inflação de doze meses a 4,62% contra um teto de 4,5% e a folga de Seu Tico com data para começar. Nenhum caderno de véspera mediu isso.


* Livre alegoria sobre a semana de 18 a 24 de outubro de 2026, véspera do segundo turno das eleições presidenciais (25/10). Pesquisas divulgadas em 24/10 apontaram o candidato desafiante numericamente à frente em cinco levantamentos, todos dentro ou no limite da margem de erro: 51% a 49% em votos válidos em dois institutos (um deles com 46% a 45% nos votos totais, com campo em 23 e 24/10), 50,8% a 49,2% em um terceiro (amostra de 4.990, margem de 1 ponto, campo de 18 a 23/10; na pesquisa anterior do mesmo instituto, de 27/09 a 02/10, o presidente aparecia com 47% a 44,1%), 50,7% a 49,3% em um quarto e 52% a 48% em um quinto. Um dos institutos registrava empate em 50% a 50% na quinta-feira (22/10). Outra pesquisa, com cerca de 15,5 mil entrevistas e margem de 1 ponto, indicava 51,3% a 48,7% em votos válidos. No primeiro turno, o desafiante teve 47,03% e o presidente 45,16% dos votos válidos. O último debate foi realizado na TV Globo em 23/10. O IPCA-15 de outubro subiu 0,32% (esperado: 0,43%), com acumulado em 12 meses de 4,62% (esperado: 4,73%), alimentação e bebidas +0,88%, energia elétrica residencial −0,89%, passagens aéreas −9,24% e combustíveis +1,20%. O Brent fechou a US$ 116,72 (+3,14%), maior nível em seis meses, em meio a tensões no Oriente Médio. O Ibovespa fechou a sexta-feira (23/10) em 205.082,56 pontos (+0,47% no dia, −0,17% na semana) e o dólar a R$ 4,993 (−0,90% no dia, −1,57% na semana), primeiro fechamento abaixo de R$ 5 desde 12/10. O Boletim Focus de 13/10 projetava corte de 0,25 ponto na Selic na reunião de 3 e 4 de novembro, para 13,50%, e o Fed tem decisão na semana seguinte. Em 21/10 foi sancionada a lei do Prospera MEI: anistia a MEIs inadimplentes com a União até 13/10/2026, teto de R$ 140 mil em 2028, até dois empregados, com renúncia estimada em R$ 1,57 bilhão (2027), R$ 3,15 bilhões (2028) e R$ 3,38 bilhões (2029) e cerca de R$ 3 bilhões em três anos pelo perdão; a estimativa de R$ 12,6 bilhões em dívidas citada na semana anterior não coincide com esse valor, e as reportagens consultadas não explicam a diferença. Em 19/10, o presidente do Senado adiou a PEC da Segurança Pública para depois do segundo turno, com impasse sobre a maioridade penal (emendas de 14 e de 16 anos para crimes graves). A Emenda Constitucional nº 141, do fim da escala 6x1, foi promulgada em 16/10, com prazo de 60 dias para a escala 5x2.

Fontes:

sábado, outubro 17, 2026

Dois dias de folga pro Seu Tico (e uma conta que ninguém fechou)*

Seu Tico abre a padaria às cinco da manhã, de segunda a sábado. Tem quatro empregados, um forno que não gosta de esfriar e um caderno onde anota quanto gasta de farinha. Na quarta-feira o Conselho dos Anciãos, lá em cima da vila, votou uma lei que mexe no calendário dele: setenta e cinco votos a favor, um contra. Na sexta a lei foi promulgada em sessão solene, com discurso e tudo.

A regra nova é curta. Ninguém trabalha seis dias para folgar um. Em até sessenta dias, a padaria passa a ter dois dias de descanso por semana e jornada de 42 horas; doze meses depois, 40 horas. O salário não cai. Há válvulas: acordo coletivo pode desenhar outra forma de compensar as horas, e quem tem diploma e ganha acima de uns R$ 21 mil pode negociar jornada própria, mantida a folga dupla. Os terceirizados da prefeitura da vila têm um ano para se ajustar.

Seu Tico fez a conta no balcão. Ou contrata gente para cobrir o sábado, ou fecha um dia, ou sobe o preço do pão francês. Os doutores da feira discordam sobre o tamanho do estrago, e discordam por uma razão simples: cada um supõe que quem paga a conta é uma pessoa diferente. Uma casa de análise calculou entre 0,38 e 0,42 ponto percentual a mais no índice de preços ao longo da transição; outra, só 0,12 ponto já em 2027, porque o freguês anda apertado (o varejo de agosto cresceu 0,1%) e a margem do dono absorve parte. O instituto do governo estima uns 1% de aumento nos preços do comércio se o custo for repassado inteiro; a confederação das fábricas fala em 6,2%. Entre 1% e 6,2% cabe muita padaria. O balanço de Seu Tico em 2027 vai dizer quem tinha razão, e nenhuma enquete mede isso.

Na quinta, o Conselho aprovou outra coisa, e o relator fez questão de amarrar as duas. Dona Cidinha, das marmitas, é microempreendedora individual e fatura rente ao teto de R$ 80 mil. Pela lei aprovada com 78 votos, o teto sobe para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, e ela poderá ter dois empregados em vez de um. O texto também perdoa dívidas inscritas na Dívida Ativa da União: o governo fala em R$ 12,6 bilhões e 3,6 milhões de microempreendedores beneficiados. Um conselheiro da oposição reclamou que o perdão premia quem deixou de pagar, e votou a favor mesmo assim; o líder da oposição disse que o texto ignora o aperto do cofre. A lei segue para a assinatura do chefe. As reportagens da semana não trazem estimativa oficial do custo do perdão.

O terceiro assunto do Conselho ficou na gaveta. A proposta da segurança da vila, de autoria do Executivo, estava na pauta de quinta. O presidente do Conselho tirou: queria evitar "discussão açodada". O nó é a idade a partir da qual um rapaz responde como adulto perante a guarda. Uma emenda propõe 16 anos como regra e 14 para crimes hediondos, tortura, tráfico e participação em facção; outra, mais restrita, fixa 16 anos só para hediondos. Enquanto isso, o resto da proposta espera: transformar em norma da Constituição o sistema que junta guarda da vila, guardas dos sítios vizinhos e polícia da estrada, endurecer a pena de chefe de milícia e de facção, e repassar 50% de dois fundos de segurança a estados e municípios. Nova data de votação não saiu.

Lá na feira, o painel das ações voltou a pesar. Depois do recorde da semana passada, fechou sexta em 205.430 pontos, queda de 1,74% na semana, e a nota verde subiu de R$ 4,99 para R$ 5,07. Seu Deca e Dona Nicinha, que erraram o caderno há duas semanas, voltaram à praça com a segunda rodada: um dos cadernos marca 47 a 45 para o desafiante (eram 49 a 45), o outro 46 a 44. Os dois falam em empate técnico, e depois de 2022 e do domingo passado ninguém na vila ri de quem diz isso. Dona Selita olhou o número do mês de agosto, atividade com alta de 0,3%, e segue com a reunião marcada para novembro. Do outro lado da cerca, segundo uma das coberturas do dia, dirigentes do banco de seu Trombone voltaram a dizer que não há pressa para apertar mais o juro, e o dólar ficou mais fraco lá fora.

Quid inde? Uma lei pode ter data para começar e ainda não ter dono para a conta. As duas horas de folga de Seu Tico vão ser pagas por alguém em 2027, e só o balanço da padaria, não o debate do Conselho, vai mostrar por quem. O perdão das marmitas teve votação e número de beneficiários, e não teve custo divulgado. A idade do rapaz diante da guarda esperou, porque o presidente do Conselho preferiu aguardar consenso, e consenso não tem prazo.

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*Livre alegoria sobre a semana de 11 a 17 de outubro de 2026. O Senado aprovou, em 14/10, por 75 votos a 1, a proposta de emenda constitucional que acaba com a escala 6x1; o Congresso a promulgou em 16/10 (Emenda Constitucional nº 141/2026). A regra prevê escala 5x2 e jornada de 42 horas em até 60 dias, jornada de 40 horas doze meses depois, sem redução salarial, com prazo de 12 meses para terceirizados da administração pública, possibilidade de regimes compensatórios por convenção ou acordo coletivo e jornadas diferenciadas, mantida a folga dupla, para trabalhadores com ensino superior e remuneração a partir de R$ 21.188,87. Estimativas de impacto divergem: a Warren Investimentos calculou entre 0,38 e 0,42 ponto percentual no IPCA ao longo da transição (estudo de junho); a Wiser Asset, cerca de 0,12 ponto líquido em 2027; o Ipea, aumento de cerca de 1% nos preços do comércio com repasse integral; a CNI, 6,2%. As vendas do varejo cresceram 0,1% em agosto. Em 15/10, o Senado aprovou, com 78 votos, o projeto de lei complementar que eleva o teto do MEI de R$ 80 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, permite dois empregados e perdoa dívidas inscritas na Dívida Ativa da União (cerca de R$ 12,6 bilhões e 3,6 milhões de beneficiários, segundo o Planalto); o texto vai à sanção, e as reportagens consultadas não trazem estimativa oficial de custo fiscal; um senador da oposição votou a favor apesar de criticar o perdão, e o líder da oposição apontou o descuido com a situação fiscal. A PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025) foi retirada de pauta em 15/10 pelo presidente do Senado para a análise de emendas sobre a maioridade penal (uma propõe 16 anos como regra e 14 para crimes hediondos, tortura, tráfico e facções; outra, 16 anos apenas para hediondos); não há nova data. O texto original constitucionaliza o Sistema Único de Segurança Pública, endurece penas para lideranças de milícias e facções, autoriza polícias municipais e prevê repasse de 50% do FNSP e do Funpen a estados e municípios. No mercado, o Ibovespa fechou a sexta-feira (16/10) em 205.430 pontos (+0,54% no dia, −1,74% na semana) e o dólar a R$ 5,073 (+1,75% na semana). O IBC-Br de agosto subiu 0,3% sobre julho. Duas pesquisas de segundo turno (eleição em 25/10) indicaram empate técnico: 47% a 45% para o desafiante em um instituto, ante 49% a 45% na rodada anterior, e 46% a 44% em outro. Uma das coberturas do dia registra que dirigentes do Fed sinalizaram ausência de urgência para novas altas. A próxima reunião do Copom será em novembro.


Fontes:

- Congresso promulga emenda do fim da 6x1; escala 5x2 começa em 60 dias

- Especialistas avaliam se fim da escala 6x1 pode impactar inflação

- Senado aprova projeto que aumenta limite e perdoa dívidas do MEI; texto segue para sanção

- Senado adia votação da PEC da Segurança Pública para analisar emendas sobre maioridade penal

- Após semana difícil, Ibovespa termina a sexta-feira (16) com alta de 0,54%

- Ibovespa fecha em +0,54%; na semana acumulou queda de 1,74%

- Datafolha e Quaest apontam empate técnico entre Flávio e Lula no 2º turno

segunda-feira, outubro 12, 2026

Dona Selita, o almanaque velho e os dois sábios do Reino do Norte (ou: o remédio que começa pelo aviso)*

Na vila havia um almanaque, o do Velho Quenes, e todo mundo confiava nele. Dizia que, quando a feira esfriava, bastava Dona Selita baixar o juro e o cofre da vila abrir a mão que a freguesia voltava. Dizia também quanto: de cada moeda que chegava a uma casa, dois terços iam para a feira e o resto para a gaveta. Conta de padeiro, e por isso mesmo agradava. Uma moeda do cofre, de balcão em balcão, rendia quase três.

Aí veio o ano do lampião caro. O querosene subiu, a feira esfriou e os preços subiram juntos, coisa que o almanaque não previa. Ele mandava aquecer a feira; Dona Selita aquecia; os preços subiam mais e o emprego não voltava. Foram anos de bolso apertado e tabuleta repintada toda semana. Muita gente queria usar o almanaque de lenha.

Seu Lucas, freguês desconfiado, apontou o defeito. As contas do almanaque tinham sido tiradas do jeito como a vila gastava no tempo em que Dona Selita agia de um certo modo. Quando ela mudava de modo, a vila mudava de gasto, e a conta envelhecia na hora. O almanaque olhava a feira lá de cima do morro e nunca tinha entrado na cozinha de ninguém.

Pois no dia 12 de outubro o Conselho dos Sábios do Reino do Norte entregou o prêmio maior a duas pessoas que passaram a vida reescrevendo o almanaque a partir da cozinha.

O primeiro foi Seu Hall, que fez uma pergunta torta. Se cada família gasta conforme o que espera ganhar adiante, o gasto de hoje já carrega tudo o que ela sabe e espera. Logo, o que muda o gasto de amanhã só pode ser notícia, e notícia, por definição, ninguém adivinha. Seu Hall pediu emprestado o caderno de Dona Nicinha, com a renda de cada família mês a mês, e a balança de Seu Deca, com o gasto. Procurou no caderno algum número que adivinhasse a mudança do gasto no mês seguinte. Quase não achou. A vila gastava como quem olha adiante. Mas nem todas as casas: umas duas em cada dez gastavam justo o que entrava, sem folga para olhar coisa nenhuma. Essa medida, a do desvio, só existiu porque Seu Hall tinha primeiro fabricado a régua.

O segundo foi Seu Woodford, que pegou a régua e escreveu um livro, Juros e Preços, com três tabuletas. Na primeira, a família decide entre gastar e guardar olhando o juro e o que espera do futuro. Na segunda, o comerciante pensa em repintar o preço da tabuleta: repintar custa tinta e tempo, então só repinta de vez em quando, e quando o faz já olha o que os vizinhos e o fornecedor vão fazer. Na terceira, a regra de Dona Selita: sobe o juro quando os preços sobem e quando a feira esquenta demais, e sobe mais do que a alta dos preços, para que o juro de verdade também suba.

Com as três tabuletas, a resposta passa a depender da causa. No ano do lampião caro, a feira esfria e, ainda assim, Dona Selita sobe o juro, porque os comerciantes não repassaram o custo inteiro e a conta ficou pendurada. Segurar os preços agora é o que evita a espiral. No ano de colheita farta, o que a vila poderia produzir cresce mais do que o que vende, e Dona Selita baixa o juro para a feira correr atrás.

E como todos olham adiante, o aviso já é metade do remédio. Quando Dona Selita anuncia onde o juro estará daqui a dois anos, a vila ajusta o gasto e o preço hoje. Isso valeu nos anos em que o juro já tinha chegado a zero e não dava mais para baixar: ela prometia, e a promessa, se acreditada, trabalhava. Seu Trombone, lá da cidade, prefere falar pouco, mas as tabuletas de Dona Woodford lembram que o aviso só funciona se a vila acredita nele.

O almanaque novo tem as suas falhas, e o Conselho foi franco ao dizê-las. Calcula bem a chuva de todo ano e mal o dia do cometa. A tinta que se repinta de vez em quando é palpite, não lei. E o aviso de longe pesava, na conta, mais do que costuma pesar na feira. A vila continua escrevendo nas margens.

Quid inde? Almanaque que ignora o que a vila espera dele vira lenha; o que serve é o que aprende a contar com a vontade de quem o lê.


,*Livre alegoria. Dona Selita é o banco central; Seu Trombone, o Fed; o almanaque do Velho Quenes, a macroeconomia keynesiana tradicional; Seu Lucas, a crítica de Lucas (1976); o Conselho dos Sábios do Reino do Norte, a Real Academia Sueca de Ciências. Seu Hall e Dona Woodford são Robert E. Hall (Stanford) e Michael Woodford (Columbia), laureados em 12 de outubro de 2026 com o Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel “pelos fundamentos microeconômicos da estabilização macroeconômica” (tradução livre), 12 milhões de coroas suecas divididas em partes iguais. Os números da vila têm lastro: propensão a consumir em torno de 2/3 e multiplicador de cerca de 3 no modelo tradicional; Hall (1978) achou, em dados trimestrais agregados dos Estados Unidos, pouco poder preditivo da renda sobre a variação do consumo; Hall e Mishkin (1982), com dados do PSID de 2.309 famílias entre 1969 e 1975, estimaram cerca de 80% de famílias em linha com a teoria e cerca de 20% consumindo a renda corrente; Woodford (2003), Interest and Prices, reuniu o modelo de três equações (consumo, preços rígidos à Calvo e regra de juros); a forward guidance foi usada no período de juros zero, que nos Estados Unidos se data de 2008 a 2015; entre os limites que a Academia registra estão a linearização, os eventos raros, a rigidez de preços ad hoc e o quebra-cabeça da forward guidance. Personagens e cenas são invenção alegórica.

Fontes: Real Academia Sueca de Ciências (12 out. 2026), comunicado à imprensa, texto de divulgação e background científico.

Declaração de uso de IA: este texto foi redigido com o auxílio do Claude, assistente de IA da Anthropic, a partir dos documentos da Academia citados acima. A responsabilidade pelo conteúdo publicado é do autor.

domingo, outubro 11, 2026

O caderno errou pro outro lado (e a feira não esperou o segundo domingo)*

(continuação de "A folha virou bem na véspera")

Semana passada deixei Seu Deca e Dona Nicinha com o caderno na mão, dizendo que o intervalo para a urna surpreender tinha ficado "do tamanho de uma unha". Pois a unha foi toda usada, e para o lado que o caderno menos esperava.

No domingo a vila votou. Quando a última urna foi aberta, quem desafiava a cadeira tinha uns 47 de cada cem votos válidos; quem ocupava a cadeira, uns 45. Ninguém passou dos cinquenta, então o desempate fica para o dia 25. Dos seis apontadores que rodaram a feira nos últimos dias, cinco traziam quem ocupa a cadeira na frente. Dona Nicinha tinha anotado 45 a 42: acertou o número de quem ocupa quase na casa decimal e errou o do desafiante por cinco pontos cheios. Seu Deca, com 46 a 45, errou por dois. Há quatro anos o caderno tinha inflado o favorito; desta vez desinflou o desafiante. O erro trocou de lado, mas continuou sendo erro.

Dona Nicinha não se abalou. Na quinta já estava de novo na rua, caderno novo debaixo do braço, e voltou com 49 a 45 para o desafiante na segunda rodada, "no limite da margem", como ela mesma faz questão de avisar. Quem a conhece sabe que a frase de sempre vem junto: "o caderno é fotografia, não é filme".

A feira, porém, não é de esperar filme. Na segunda cedo o trocador de moedas da praça abriu o balcão e a nota verde despencou mais de 4% num dia só, a maior queda diária em mais de oito anos, e foi parar nos cinco reais. O painel das ações passou dos 206 mil pontos logo de cara, deu uma recuadinha na terça e na sexta fechou em 209 mil, recorde de novo. Na conta da semana, alta de quase 9%, a melhor desde março de 2020. A nota verde terminou a semana perto de R$ 4,99, bem abaixo dos R$ 5,22 de oito dias antes.

Os feirantes explicam a festa assim: apostaram que uma troca de mãos na cadeira traria mudança de rumo no cofre da vila, e foram comprar antes que subisse. É a leitura da feira, não um fato. A segunda rodada ainda não aconteceu, e a feira já errou a leitura de eleição outras vezes.

No meio da animação, Dona Selita ficou sentada no canto da mesa, sem brindar. Saiu a conta de preços de setembro: 0,82%, mais do que os 0,73% que se esperava, com a luz subindo quase 8% (acabou o desconto que a gente contou aqui) e o tomate quase 38%. Em doze meses, 4,58%, já acima do teto de 4,5% que ela mesma jurou perseguir. Os economistas da feira subiram a projeção do ano pela terceira semana seguida, para uns 5%. "Dólar barato é bom", teria dito ela, "mas não paga a conta do tomate." A próxima reunião dela é só em novembro.

Do outro lado da cerca, seu Trombone seguia sem dar pista. O juro dos títulos mais compridos da cidade grande chegou a níveis que não se via havia mais de vinte anos, e a aposta de nova alta dele já em outubro esfriou, enquanto a de dezembro ganhou força. E o barril do poço lá longe seguiu rondando os cem dólares, o que pesa no óleo diesel e, mais cedo ou mais tarde, no frete de tudo que chega à vila.

Quid inde? Semana passada a feira comemorou a véspera; nesta, comemorou o resultado antes de o jogo acabar. O caderno errou para um lado em 2022 e para o outro agora, e a feira corre atrás de qualquer um dos dois. Enquanto isso, o cofre da vila continua como estava: preço acima do teto, juro caro lá fora, petróleo alto. Dólar barato é sorriso; safra é outra coisa.

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*Livre alegoria sobre a semana de 3 a 10 de outubro de 2026. No primeiro turno das eleições presidenciais (4/10), o principal desafiante do governo ficou em primeiro lugar com 47,03% dos votos válidos, contra cerca de 45,2% do presidente candidato à reeleição; o segundo turno será em 25/10. Das seis pesquisas de institutos nacionais mais citadas na véspera, cinco apontavam o presidente à frente; os dois institutos descritos no post anterior haviam registrado 45% a 42% e 46% a 45%, o que implicou erro de cerca de 5 e 2 pontos, respectivamente, sobre o desafiante, e erro quase nulo sobre o presidente. Uma nova pesquisa de segundo turno, divulgada em 8/10, apontou 49% a 45% para o desafiante (52% a 48% nos votos válidos), no limite da margem de erro. No mercado, o dólar caiu 4,12% na segunda-feira (5/10), a maior queda diária em mais de oito anos, fechando em R$ 5,0022, e encerrou a semana a R$ 4,9851 (queda de 4,44% em cinco pregões). O Ibovespa fechou a segunda em recorde (206.911,89 pontos), recuou 0,52% na terça e terminou a sexta-feira (9/10) em 209.066,90 pontos, novo recorde nominal, com alta semanal de 8,82%, a maior desde março de 2020. O IPCA de setembro, divulgado pelo IBGE em 9/10, foi de 0,82% (esperado: 0,73%), com energia elétrica +7,98% pelo fim do Bônus de Itaipu e tomate +37,76%; o acumulado em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta (4,5%), e a projeção do Boletim Focus para 2026 subiu pela terceira semana seguida, a 5,01%. Nos Estados Unidos, os juros dos Treasuries de 10 e 30 anos chegaram a cerca de 5,3% e 5,7% (maiores níveis em mais de duas décadas), a chance de nova alta do Fed em outubro caiu para cerca de 22% e a de dezembro subiu para cerca de 69%, às vésperas da ata da reunião de setembro (7/10). O petróleo Brent seguiu acima de US$ 100 por barril. O próximo Copom será em novembro.

Fontes:

- TSE encerra apuração do 1º turno

- Só uma pesquisa apontava Flávio numericamente à frente de Lula

- Datafolha, segundo turno: Flávio Bolsonaro 49%, Lula 45%

- Ibovespa cai após rali eleitoral e dólar recua para menor cotação em 5 meses

- Ibovespa tem duplo recorde aos 209 mil pontos e avança quase 9% na semana após 1º turno

- IPCA: inflação sobe 0,82% em setembro, com alta da energia elétrica

- Pré-mercado: investidores aguardam minutas da reunião do Fed

sábado, outubro 03, 2026

A folha virou bem na véspera (e não é a primeira vez)*

Na Vila Sossego tem dois apontadores de opinião que ninguém contesta. Toda eleição grande, os dois saem pela feira, caderno debaixo do braço, perguntando casa por casa, barraca por barraca, quem o povo vai escolher pra cuidar do cofre da vila. Um é Seu Deca da Balança, que gosta de pesar o humor do eleitor num instrumento só dele, complicado, que ninguém mais entende, mas que costuma acertar o prato. A outra é Dona Nicinha do Caderno, que anota tudo em letra redonda e roda a feira desde que muita gente ali nem tinha nascido.

Quatro anos atrás, bem na véspera de uma eleição parecida com essa, os dois chegaram à praça com números quase gêmeos: diziam que quem desafiava o mandato tinha mais de cinquenta das intenções válidas, contra uns trinta e seis, trinta e sete de quem defendia a cadeira. Um recado e tanto — tão grande que muita gente já ia dormir calculando se não dava pra resolver tudo ainda naquele primeiro domingo de votação, sem precisar de segunda rodada nenhuma.

Pois no domingo a urna contou outra história. O desafiante levou, sim — mas não com cinquenta e tantos, e sim com uns quarenta e oito, contra uns quarenta e três do outro lado. A vantagem que o caderno de Dona Nicinha e a balança de Seu Deca mediram na véspera murchou feio entre a sexta e o domingo — ou, mais provável, nunca foi do tamanho que os dois instrumentos indicaram. Teve segundo turno, teve reza forte dos dois lados, e os dois apontadores levaram uns bons meses ouvindo pilhéria na feira.

Pula pra essa semana. A vila vota de novo domingo, e de novo é a cadeira da reeleição em jogo — só que agora quem a ocupa é o antigo desafiante de quatro anos atrás, e quem desafia é filho do antigo ocupante. Seu Deca e Dona Nicinha voltaram a rodar a feira faltando poucos dias pra urna, e aí vem a novidade: o caderno dos dois, que há um mês ainda marcava distância confortável pro lado de quem ocupa a cadeira, essa sexta e esse sábado apertou que só. Seu Deca mediu quarenta e seis contra quarenta e cinco — praticamente empatado, dentro da margem que ele mesmo admite ter. Dona Nicinha, por sua vez, apontou quarenta e cinco a quarenta e dois no primeiro escrutínio, e, numa simulação de segunda rodada, quarenta e sete a quarenta e seis — empatado também. E tem mais: comparando com o caderno da própria Dona Nicinha de dois dias antes, quem desafia ganhou dois pontos sozinho, num intervalo de quarenta e oito horas — justo na reta final, quando normalmente já não muda muita coisa.

Reparem a diferença fina entre as duas vésperas. Há quatro anos, os apontadores mediram uma vantagem gorda que a urna não confirmou — e a surpresa foi a disputa vir mais junta do que o anunciado. Essa semana, os apontadores já chegam à véspera com a disputa junta — tão junta que a surpresa, se vier, pode escapar pra qualquer lado, e ninguém na feira tem como garantir qual.

Seu Deca, perguntado se confiava no próprio instrumento, deu de ombros: "Meço o que vejo hoje, não o que vai acontecer domingo." Dona Nicinha, mais cautelosa ainda depois do vexame de quatro anos atrás, só repetiu o que sempre diz antes de qualquer eleição grande: "O caderno mostra uma fotografia, não o filme."

Quid inde? Dois apontadores que concordam entre si não são garantia de nada — a vila já viu isso de perto, há quatro anos, quando os dois mediram o mesmo número errado ao mesmo tempo. O que muda, de uma véspera para a outra, não é a confiança que se deve ter no caderno, mas o tamanho do intervalo que ele deixa pra urna surpreender. E esse intervalo, dessa vez, ficou do tamanho de uma unha.


*Livre alegoria sobre a véspera do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras de 2026, marcado para 4 de outubro. Dois institutos de pesquisa divulgaram, em 3 de outubro, levantamentos mostrando margem mínima entre o atual presidente, candidato à reeleição, e seu principal adversário, filho do ex-presidente: um apontou 46% a 45% no primeiro turno, dentro da margem de erro de dois pontos; o outro apontou 45% a 42% no primeiro turno e 47% a 46% em simulação de segundo turno — este último mostrando o desafiante avançando dois pontos em relação ao levantamento do mesmo instituto feito 48 horas antes, enquanto o candidato à reeleição permanecia estável. A comparação remete à véspera do primeiro turno de 2022, quando os dois principais institutos do país divulgaram, em 1º de outubro, pesquisas apontando o então desafiante — hoje o presidente em exercício — com 50% e 51% dos votos válidos, contra 36% e 37% do então presidente, sugerindo possibilidade real de vitória ainda no primeiro turno. O resultado das urnas, em 2 de outubro de 2022, mostrou vantagem bem mais estreita — 48,43% a 43,20% — levando a disputa ao segundo turno e tornando-se um dos episódios mais lembrados de erro de margem na história recente das pesquisas eleitorais brasileiras.

Fontes:

O bingo fechado e a corda mais solta*

(mais um capítulo da novela de seu Trombone e Dona Selita)

Faz duas semanas que a gente contou aqui como seu Trombone, na cidade grande, puxou a corda do juro pra cima pela primeira vez em três anos — e como dezesseis de dezoito sócios já apostavam que vinha mais aperto antes do fim do ano. Pois essa semana, bem na sexta-feira, chegou uma notícia que fez seu Trombone coçar a cabeça.

Saiu, com atraso e meio escondida no meio da poeira, a conta de quantos trabalhadores a cidade grande contratou no mês passado. O mercado inteiro apostava em torno de noventa mil novas carteiras assinadas. Vieram só vinte e nove mil — menos de um terço do esperado. Resultado: quem jurava que seu Trombone ia apertar a corda de novo já em outubro agora não tem tanta certeza assim. A ideia de puxar o juro de novo, que semana passada parecia favorita disparada, perdeu fôlego da noite pro dia.

E não foi só lá fora que a atividade mostrou sinais de cansaço. Na própria Vila Sossego, saiu também que a produção das fábricas caiu em agosto — mais um mês fraco, reforçando a sensação de que a colheita industrial andou mais devagar que o esperado. Pra Dona Selita, isso é munição a mais pra seguir afrouxando a corda dela por aqui, mesmo que o preço do mês tenha dado aquele soluço em setembro, do qual já falamos.

Só que a semana reservou um terceiro ato, esse bem mais de casa.

Faltando poucos dias pra votação que escolhe quem vai mandar na vila pelos próximos anos, o chefe que briga pela reeleição resolveu abrir o cofre e fechar o bingo no mesmo fôlego. De um lado, assinou um decreto proibindo de uma vez o jogo de apostas que vinha bombando feira a feira — cassino virtual, raspadinha, tudo fechado, sem devolver nem um tostão às casas de aposta que tinham pago pela licença. Do outro lado, no mesmo pacote, prometeu aumentar em 15% a ajuda que distribui às famílias mais pobres, criou um programa pra comprar e perdoar dívida de gente endividada no comércio, e sinalizou que vai precisar remendar o orçamento do ano que vem em uns 33 bilhões pra pagar a conta de tudo isso.

Reparem no timing: proibir o jogo que incomoda muita gente, e no mesmo gesto abrir a mão pra quem vota — tudo na última semana antes da urna. Os feirantes mais cínicos da Vila Sossego comentaram, rindo, que não existe coincidência tão bem distribuída assim.

E qual foi a reação da feira grande a tudo isso? Bem favorável, por sinal. Na última sessão antes da votação, depois de balançar de um lado pro outro o dia inteiro, o painel disparou mais de 2,6% só na sexta, fechando a semana com ganho de quase 5% — o primeiro depois de duas semanas de queda. Ajudou o payroll fraco de lá de fora, ajudou a pesquisa de boca de urna mostrando folga confortável pro lado que lidera, e ajudou até um achado de petróleo numa nova fronteira da costa, que animou a ação da petroleira local. A nota verde, por sua vez, ficou praticamente parada, fechando a semana quase no mesmo canto onde começou.

Quid inde? Uma semana pode trazer, ao mesmo tempo, um juro que hesita lá fora, uma fábrica que produz menos aqui dentro, e um chefe de vila distribuindo presente de uma mão e fechando porta com a outra — tudo isso bem na véspera do povo decidir, na urna, quem vai cuidar do cofre pelos próximos quatro anos. E a feira, com sua lógica própria, decidiu comemorar tudo junto.


* Livre alegoria sobre a semana de 27 de setembro a 2 de outubro de 2026, véspera do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras (4/10). Nos Estados Unidos, o payroll de setembro, atrasado pelo cronograma do governo, mostrou criação de apenas 29 mil vagas, bem abaixo das 90 mil esperadas pelo mercado, reduzindo as apostas em uma nova alta de juros pelo Federal Reserve na reunião de outubro, após a alta de 0,25 ponto decidida em 16 de setembro. No Brasil, a produção industrial de agosto recuou 0,6%, reforçando a leitura de desaceleração da atividade e abrindo espaço para a continuidade dos cortes da Selic. No campo eleitoral, o governo editou uma medida provisória proibindo apostas de quota fixa e cassinos online, sem indenizar as 85 empresas que haviam recebido autorização desde 2024, e anunciou um pacote que inclui reajuste de 15% no Bolsa Família e o programa de recompra de dívidas Desenrola 3.0, com impacto fiscal estimado em R$ 33 bilhões no orçamento de 2027. Pesquisas divulgadas na semana (Datafolha, Quaest e BTG/Nexus) mostraram folga do candidato à frente no primeiro turno e um quadro apertado numa eventual disputa de segundo turno. O Ibovespa fechou a sexta-feira (2/10), último pregão antes da eleição, em alta de 2,63%, aos 192.114 pontos, acumulando ganho semanal de 4,71% — revertendo duas semanas seguidas de queda —, impulsionado também por uma descoberta de petróleo em nova fronteira exploratória. O dólar encerrou a semana praticamente estável, em R$ 5,216.

Fontes:

domingo, setembro 27, 2026

O desconto que a luz devolveu (e depois cobrou de volta)*

Mês passado a gente contou aqui como um desconto na conta de luz ajudou a derrubar o preço da feira e deu a Dona Selita confiança de sobra pra cortar o juro dela. Pois esse mês veio a parte da história que todo mundo sabia, no fundo, mas ninguém gostava de lembrar: aquele desconto era emprestado, não de graça — e a conta, mais cedo ou mais tarde, cobraria de volta.

Explico rapidinho pra quem não acompanhou: a usina do rio grande, dona da represa que ilumina a vila inteira, tinha sobrado dinheiro de um acerto de contas antigo e resolveu devolver uma fatia pro povo, batendo direto na conta de luz de agosto. Foi festa — a conta veio bem mais barata, o preço da feira caiu de surpresa, todo mundo comemorou junto. Só que era presente de vez única, não promessa de conta barata pra sempre.

Chegou setembro, o presente acabou — e, sem ele, a conta de luz simplesmente voltou ao tamanho normal. Só que, comparada com o mês anterior (que estava artificialmente baixo), pareceu ter disparado: mais de 7% de alta só na luz. Somando um tomate que ficou 20% mais caro e a passagem que também subiu, a prévia do preço do mês veio em 0,70% — quase o dobro do que os feirantes mais experientes tinham calculado.

E aí vem a parte mais engraçada da semana: na mesmíssima manhã em que essa notícia caiu como balde de água fria sobre a vila, chegou aviso de bem longe, lá do tal vale da velha guerra do poço — os dois lados finalmente se sentaram numa mesa de conversa, numa cidade distante, e o preço do combustível, que vinha subindo sem parar, deu uma boa recuada. Duas notícias que, normalmente, costumam andar de mãos dadas — combustível caro puxa preço de tudo pra cima — resolveram, dessa vez, ir cada uma pro seu canto, no mesmo dia, deixando os feirantes coçando a cabeça sem saber qual das duas explicações confiar.

A ata da última reunião de Dona Selita, publicada dias antes desse susto, já vinha com tom cauteloso, repetindo que o preço geral ainda corre acima do que a vila persegue e que as expectativas seguem elevadas. Agora, com o solavanco de setembro no colo, os feirantes mais antigos brigam sem chegar a acordo: uns acham que ela ainda vai cortar de novo em novembro, outros já apostam que ela prefere segurar a mão dessa vez. E tudo isso acontece bem na última semana antes da eleição do novo chefe da vila — o que deixa cada centavo que sobe ou desce sendo lido com uma lupa a mais na mão.

Quid inde? Um desconto de uma vez só nunca é o mesmo que preço mais barato pra sempre — e quem comemora a queda sem perguntar de onde ela veio corre o risco de levar o susto contrário, do mesmo tamanho, assim que o presente acabar.

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*Livre alegoria sobre a semana de 20 a 26 de setembro de 2026: o IPCA-15 de setembro veio em 0,70%, revertendo a deflação de 0,40% de agosto e quase dobrando a mediana esperada pelo mercado (0,53%), impulsionado sobretudo pelo fim do Bônus de Itaipu — o desconto temporário creditado na conta de luz em agosto —, que fez a energia elétrica residencial subir 7,42% no mês. O acumulado em 12 meses avançou de 4,24% para 4,47%. No mesmo dia, o petróleo Brent recuou de cerca de US$ 106 para perto de US$ 98 o barril, em meio a notícias de negociações em Nova York envolvendo o conflito no Oriente Médio. A ata do Copom, divulgada nos dias anteriores, manteve tom cauteloso quanto ao ritmo de novos cortes da Selic (em 13,75% desde 16/9), e o mercado ficou dividido: parte dos analistas ainda projeta cortes em novembro e dezembro, enquanto outra parte já cogita manutenção na próxima reunião. O dólar fechou a semana em alta de 0,81%, a R$ 5,1991, embora ainda acumule queda de 5,51% no ano. A semana também marcou a reta final antes do primeiro turno das eleições presidenciais.


domingo, setembro 20, 2026

A quarta em que as duas manivelas giraram ao contrário

 

Semana passada, aqui mesmo, eu contei que tudo indicava que Dona Selita ia afrouxar o juro dela enquanto seu Trombone ia apertar o dele, do outro lado da cerca. Pois bem: aconteceu. E não aconteceu só na mesma semana — aconteceu na mesma quarta-feira, quase na mesma hora, como se as duas praças tivessem combinado (sem combinar nada) de girar a manivela do dinheiro em direções opostas debaixo do mesmo relógio.

Na Vila Sossego, Dona Selita cortou um quartinho de ponto — o quinto corte seguido desde que começou a soltar a corda, lá no ciclo que já dura mais de meio ano. O juro local foi de 14% pra 13,75%. Mas, como já é praxe dela, veio corte com cara séria: nada de prometer mais alívio na próxima reunião, que só volta a acontecer em novembro. "Vamos com calma, olhando cada preço que aparecer pela frente", foi o recado, mais ou menos assim.

Do outro lado da cerca, na cidade grande, seu Trombone fez o oposto: subiu o juro dele em um quartinho de ponto, a primeira alta em três anos inteiros — desde que ele mesmo assumiu a cadeira, aliás, nunca tinha subido nada, só segurado. A decisão saiu sem um voto contra, todos os sócios concordando. A explicação foi direta: o preço lá andava "alto demais, por tempo demais demais", nas palavras dele. E teve um detalhe e tanto: o próprio coronel Tio Sam — aquele que colocou seu Trombone na cadeira, lá atrás — andou reclamando publicamente que não queria alta nenhuma. Seu Trombone e os sócios subiram o juro do mesmo jeito, sem se abalar com a bronca do padrinho. E, pra quem esperava alívio depois dessa primeira subida, veio mais um recado seco: de dezoito sócios que dão palpite sobre o futuro, dezesseis já sinalizam que deve ter mais uma alta ainda esse ano.

Reparem no contraste bonito dessa história: na mesma tarde, no mesmo relógio, uma praça soltou a corda e a outra apertou — cada uma respondendo ao próprio preço, à própria colheita, à própria guerra distante que segue empurrando o combustível pra cima do lado de lá. Nenhuma delas se importou muito com o que a vizinha estava fazendo. Dona Selita não corta pensando em seu Trombone, e seu Trombone não sobe pensando em Dona Selita — cada um decide olhando só pro próprio quintal, mesmo sabendo que o efeito de um sempre acaba escapando pela cerca e chegando no outro.

Quid inde? Duas economias vizinhas podem girar a manivela do dinheiro em direções opostas no mesmíssimo instante, e ainda assim as duas estarem certas — cada uma lendo direito o próprio termômetro. E fica a lição menor, mas nada desprezível: até quem coloca o banqueiro na cadeira nem sempre consegue dizer pra que lado ele vai virar a manivela quando chega a hora.


Livre alegoria sobre a semana de 13 a 19 de setembro de 2026: na quarta-feira (16/9), o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano — quinto corte consecutivo do ciclo —, sinalizando cautela e dependência de dados para os próximos passos, com a próxima reunião prevista apenas para novembro. No mesmo dia, o Federal Reserve elevou os juros americanos em 0,25 ponto, de 3,50%–3,75% para 3,75%–4,00%, em decisão unânime — a primeira alta desde 2023, revertendo cinco reuniões seguidas de estabilidade e ocorrendo apesar da resistência pública do presidente Donald Trump à medida. O presidente do Fed, Kevin Warsh, justificou a decisão afirmando que a inflação americana está "muito alta há muito tempo"; as novas projeções do Comitê elevaram a mediana esperada para os juros no fim de 2026 para 4,1%, com 16 dos 18 participantes sinalizando pelo menos mais uma alta ainda este ano.

sábado, setembro 12, 2026

Enquanto Dona Selita afrouxa, seu Trombone aperta o parafuso*

Faz tempo que a gente vem contando aqui, semana após semana, como Dona Selita e seu Trombone decidem o juro de suas respectivas praças. Pois essa foi a semana em que os dois caminhos, que já vinham se afastando devagar, ficaram de vez em direções opostas.

Começa pela Vila Sossego. Saiu a prévia do preço do mês, aquela conta que todo feirante espera com o coração na mão, e veio surpresa: os preços não subiram, caíram — e caíram bem mais do que qualquer um apostava, a queda mais forte em quatro anos. O motivo principal foi a conta de luz, que baixou bastante graças a um desconto repassado ao povo. Com isso, o preço acumulado no ano ficou, pela segunda vez seguida, dentro da faixa que a vila persegue há tempos. Resultado: Dona Selita ganhou ainda mais confiança pra cortar o juro dela na próxima reunião, exatamente como o mercado já vinha esperando.

Agora atravessa a cerca e olha o que aconteceu na cidade grande.

Lá, o preço do mês não amoleceu nadinha — ficou correndo no mesmo ritmo apertado do mês anterior. E o vilão, dessa vez, foi o combustível: o galão que há um ano custava um preço, hoje custa quase 30% a mais, empurrado pela véia guerra do poço, que já passa dos seis meses sem trégua. Some a isso um mês de contratação de trabalhadores muito mais forte do que ninguém esperava, e o resultado foi uma virada e tanto: quem, até pouco tempo, apostava que seu Trombone ia manter o juro dele parado agora acha bem mais provável que ele resolva subir o juro na reunião da semana que vem — coisa que quase ninguém levava a sério lá no começo do ano.

Curioso comparar as duas pontas da mesma semana. De um lado da cerca, o alívio na conta de luz abre a porta pro corte de juro. Do outro, o preço teimoso do combustível — puxado por uma guerra que a vila nem participa — quase empurra o juro pra cima. Duas praças vizinhas, dois climas completamente diferentes, cada uma vivendo sua própria estação.

E tem mais um detalhe que os feirantes mais antigos comentaram essa semana, cochichando na sombra do galpão: o painel da feira da Vila Sossego, que só nesse mês já engordou mais de 6%, segue subindo puxado quase inteiramente pelo próprio povo local — os bancos, sobretudo. Aquele forasteiro de quem falamos há duas semanas, rondando o portão, ainda não voltou de vez pra festa. A alta, por enquanto, é festa de vizinho, sem visita de fora confirmada.

Quid inde? Duas economias podem morar cerca a cerca e, ainda assim, viver estações completamente diferentes ao mesmo tempo — uma colhendo o alívio de uma conta de luz mais barata, a outra presa numa guerra de petróleo que não dá trégua nenhuma. E cada uma decide seu próprio juro pensando exatamente nisso, sem se importar muito com o clima do vizinho.

sábado, setembro 05, 2026

A porteira que quase abriu (e a que fechou sem avisar)

 

(mais um capítulo de "O pedágio na porteira do Grandão")

Depois de semanas de bate-boca, essa foi a primeira em que o vento pareceu soprar mais brando do lado da Fazenda do Grandão. O capataz avisou que novas conversas estão marcadas pras próximas semanas, e correu forte o boato de que o próprio coronel Tio Sam teria orientado seu pessoal a buscar um acordo com Seu Louro, em vez de continuar cobrando pedágio pesado igual antes. Seu Louro, animado, mandou recado de volta dizendo que dá, sim, pra sair dessa com ganho pros dois lados.

Só que, no meio da esperança de uma porteira se abrindo de um lado, veio o balde de água fria do outro.

Um velho comprador de Seu Louro, lá da região distante que todo mundo chama de Velho Continente, avisou de supetão que ia parar de comprar boi dele a partir de quinta-feira. E olha a ironia: era justamente a carne — o item que, lá atrás, tinha escapado ileso do pedágio do Grandão, um dos poucos que a lista de exceções tinha poupado. Livrou-se de uma porteira fechada só pra topar com outra, do lado oposto do mapa, batendo na cara sem aviso prévio de briga nenhuma.

Enquanto isso, na própria roça de Seu Louro, a colheita seguia crescendo — só que mais devagarinho do que antes. O relatório trimestral mostrou que a produção cresceu na metade do ritmo do trimestre anterior. E o motivo não é segredo pra quem acompanha essa história há meses: tudo que depende de pedir dinheiro emprestado pra plantar segue sentindo o peso do juro alto de Dona Selita, enquanto só a lavoura mais resistente — grão e poço de petróleo, que não precisam tanto de financiamento — continuou puxando o carro sozinha.

E, pra fechar a semana com uma boa notícia no meio de tanta novela: mesmo com porteira balançando de um lado e fechando do outro, Seu Louro conseguiu vender lá fora mais do que o esperado — o saldo do mês veio bem mais gordo do que qualquer analista tinha calculado, prova de que uma roça bem plantada arruma comprador mesmo quando a vizinhança está em polvorosa.

Quid inde? Uma fazenda que depende de um único portão pra escoar a colheita vive na corda bamba: basta um vizinho amolecer o gênio que outro, do lado oposto do mapa, resolve fechar o dele sem sequer mandar recado antes. Sobrevive melhor quem planta variado e tem porta pra todo lado — e quem, mesmo com o juro puxando o freio, ainda garante um pé de meia de sobra no fim do mês.


* Livre alegoria sobre a semana de 30 de agosto a 5 de setembro de 2026: no front comercial com os Estados Unidos, o ministério da Fazenda sinalizou que novas rodadas de negociação sobre o tarifaço estão previstas para as próximas semanas, com relatos de que o próprio presidente americano teria orientado a equipe a buscar um acordo com o Brasil, e o vice-presidente Alckmin declarou otimismo com uma solução "ganha-ganha". No mesmo período, a União Europeia anunciou a suspensão das importações de carne bovina brasileira a partir de quinta-feira (3/9). Já no campo doméstico, o IBGE informou que o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre ante o primeiro (dessazonalizado), pouco acima da expectativa de mercado (0,4%), mas menos da metade do avanço de 1,1% do trimestre anterior, confirmando a perda de fôlego da atividade — crescimento puxado pela agropecuária (+2,8%) e pela indústria extrativa (+3,4%, com petróleo e gás), setores menos sensíveis ao juro alto. Na balança comercial, as exportações somaram US$ 33,2 bilhões em agosto, levando a um superávit de US$ 7,4 bilhões, acima da estimativa média dos analistas. O Boletim Focus manteve a projeção do câmbio para o fim de 2026 em R$ 5,20 e reduziu ligeiramente as projeções de IPCA (para 5,01%) e PIB (para 1,92%) do ano.

sábado, agosto 29, 2026

O dono de fora espia o portão (e o banqueiro da serra não solta pista) *

 (continuação de "O gado volta pro curral")

Semana passada o gado tinha voltado sozinho pro curral da Vila Sossego, sem convite de ninguém de fora. Pois essa semana o passeio continuou: foram sete pregões seguidos de alta na feira grande, um atrás do outro, até fechar quinta-feira em 175 mil pontos e trocadinhos. Quem ficou de fora da roda de conversa nem acreditou quando soube.

E teve mais boa notícia junto: a prévia do preço do mês, que há algumas semanas vinha assustando todo mundo, dessa vez veio ao contrário do esperado — os preços recuaram, não subiram. E, olhando com atenção, começou a circular um boato animador entre os feirantes mais experientes: o tal forasteiro, aquele que semana passada nem sequer tinha voltado a espiar o portão, foi visto rondando de novo os arredores da Vila Sossego, cheirando o ar, cogitando se não seria hora de voltar a apostar por aqui.

Enquanto isso, lá na cidade grande, o assunto era outro — e bem mais esperado. Uma vez por ano, os banqueiros mais graúdos de toda região se reúnem numa serra distante pra discutir os rumos do dinheiro do mundo inteiro. E essa foi a primeira vez que seu Trombone, o novo sócio-chefe, subiu ao palco de lá. Meio mundo ficou esperando o discurso feito quem espera boletim de médico: será que ele ia dar alguma pista sobre o juro?

Não deu.

Seu Trombone subiu, falou por um bom tempo, disse que a temporada de preços mais amenos foi boa notícia, mas avisou que não significa, nem de longe, que o problema acabou. Disse ainda, sem meias palavras, que o juro pode até precisar subir mais, se a coisa não melhorar de verdade. E fechou avisando que não pretende deixar todo mundo virar refém do próximo comentário dele — que cada um cuide da sua própria lavoura, em vez de ficar de olho só na boca do banqueiro pra saber pra que lado apostar.

Resultado? Quem esperava alívio saiu do salão sem ele. O juro dos empréstimos mais longos, que tinha amansado um pouco na véspera só de expectativa, voltou a subir depois do discurso — passou até do patamar de antes. Um ano de espera por uma fala e, no fim, o recado foi: não esperem recado nenhum de mim.

Curioso comparar as duas cenas da mesma semana: na Vila Sossego, sete dias de sorriso, preço recuando, forasteiro rondando o portão outra vez. Na serra da cidade grande, um discurso ansiado feito chuva no sertão que, quando finalmente vem, só molha a terra e não cai gota nenhuma além disso.

Quid inde? Tem semana em que a alegria e a cautela moram lado a lado, cada uma no seu canto do mapa — e cabe a quem observa de longe não confundir sete dias de sorriso com promessa de sol pro ano inteiro, nem discurso comprido com sinal de chuva.


* Livre alegoria sobre a semana de 23 a 29 de agosto de 2026: o Ibovespa encerrou o pregão de quinta-feira (27/8) em alta pelo sétimo dia consecutivo, aos 175.135 pontos, em meio à recepção integral de um leilão de títulos prefixados do Tesouro, à deflação registrada no IPCA-15 de agosto e a sinais de retorno do fluxo de capital estrangeiro à bolsa brasileira. No mesmo período, o Federal Reserve viveu seu momento mais aguardado do ano: a estreia do presidente Kevin Warsh no simpósio de Jackson Hole, em 28/8. Em seu discurso, Warsh evitou dar qualquer sinalização (forward guidance) sobre os próximos passos dos juros, afirmou que a melhora recente da inflação não indica que o problema esteja resolvido, sugeriu que os juros podem até precisar subir caso não haja mais progresso, e defendeu que o mercado não deveria depender das falas do Fed para decidir suas apostas. A reação foi de decepção: os rendimentos dos títulos públicos americanos de longo prazo, que haviam recuado na véspera em expectativa, voltaram a subir após o discurso, superando os níveis anteriores ao evento.

sábado, agosto 22, 2026

O gado volta pro curral (mas o forasteiro nem voltou) *

 (continuação de "O forasteiro mudou de ideia sobre a safra")

Semana passada contamos aqui como o avaliador de fora esfriou o entusiasmo com a Vila Sossego, e como o painel da feira grande desabou no dia seguinte à carta dele. Pois quem imaginou que o estrago parava por ali se enganou feio: a fila de pregões no vermelho não teve dó, esticou até completar onze dias seguidos de queda — uma miséria tão comprida que virou assunto até na fila do padeiro Seu Tico, que nem costuma acompanhar feira.

Só que essa semana o vento virou.

Lá na cidade grande, o juro dos títulos mais compridos deu uma amansada, tirando um peso enorme do colo dos investidores do mundo inteiro. Por aqui, o gado — quer dizer, as ações da mineradora, que tinham puxado boa parte da fila de queda — voltou a subir com gosto, e os bancos foram atrás. Na sexta, o painel fechou em alta de quase 2%, emendando o terceiro pregão seguido de recuperação, e a semana terminou com ganho de perto de 2,4%.

Bonito de ver, sem dúvida. Mas tem dois detalhes que valem mais do que o número da sexta-feira.

Primeiro: olhando agosto inteiro, a feira segue no vermelho. A queda acumulada nas semanas anteriores foi tão funda que três dias de festa não bastaram pra cobrir o rombo — o mês, até aqui, ainda fecha negativo.

Segundo, e mais importante: quem voltou a comprar dessa vez foi sobretudo o próprio povo da vila. O forasteiro que esfriou o entusiasmo semana passada nem apareceu de volta. Pelo contrário — o dinheiro de fora continuou de malas prontas: só em agosto, já passa de vinte e dois bilhões saindo da feira, mesmo com o painel subindo nesses últimos três dias. É um gado que voltou pro curral pelas próprias pernas, sem convite de ninguém de fora.

E, pra fechar a semana com direito a novela extra: lá longe, na briga antiga pelo poço, o coronel da fazenda mais forte ameaçou fechar negócio com qualquer vizinho que ainda comercie com o dono do poço, e o preço do combustível disparou de novo — mais de 6% de alta só essa semana. A tal guerra velha, que a gente já contou aqui outras vezes, segue sem dar trégua, e cada susto novo lá do vale ainda balança o preço de tudo por aqui.

Quid inde? Uma festa na feira que nasce de dentro pra fora — puxada pelo próprio povo, sem o forasteiro batendo palma — é bonita de ver, mas caminha em pernas mais frágeis do que aquela que convence o mundo inteiro a voltar. O gado recolheu ao curral sozinho; falta ainda o dono de fora aparecer no portão pra dizer que confia de novo.


* Livre alegoria sobre a semana de 16 a 22 de agosto de 2026: após o rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan (11/8), o Ibovespa emendou onze pregões consecutivos de queda antes de reverter o quadro na reta final da semana, puxado pela alívio nos juros dos Treasuries americanos de longo prazo e pela recuperação de Vale e dos grandes bancos. O índice fechou a sexta-feira (21/8) em alta de 1,85%, aos 171.031 pontos, acumulando ganho semanal de cerca de 2,4% — ainda que agosto, no mês, permaneça no negativo. O dólar fechou a semana em queda, cotado a R$ 5,14. Apesar da recuperação, investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 22 bilhões da bolsa brasileira em agosto até o dia 19, sinal de que o movimento de alta teve caráter mais técnico e doméstico do que estrutural. No cenário externo, o petróleo (Brent) subiu cerca de 6,4% na semana, após novas ameaças de sanções dos EUA a parceiros comerciais do Irã, reacendendo a tensão no Oriente Médio. Nos EUA, o Federal Reserve segue sob atenção do mercado ante o Simpósio de Jackson Hole, com o primeiro discurso do presidente Kevin Warsh no cargo previsto para a semana seguinte (27 a 29 de agosto).

sábado, agosto 15, 2026

O forasteiro mudou de ideia sobre a safra *

Tem um avaliador que passa de tempos em tempos pela Vila Sossego. Não mora lá, nunca morou — vem de uma casa de apostas enorme, lá na cidade grande, que empresta dinheiro de gente rica pra ser aplicado nas colheitas de vilarejos de toda a região. Desde março do ano passado, esse avaliador andava com o bordão sempre na ponta da língua: "comprem mais que o normal da Vila Sossego, ela está com tudo." Muita gente rica seguia o conselho dele de olhos fechados, e o dinheiro entrava.

Essa terça-feira, o avaliador mandou uma nova carta. E o tom mudou: "comprem só o normal agora, nem mais nem menos." Não disse "vendam tudo", não falou mal da colheita — só parou de recomendar exagero.

As razões que ele deu, todo mundo achou razoáveis: o ciclo de corte no juro de Dona Selita parece estar chegando perto do fim, a colheita anda crescendo mais devagar do que antes, o crédito na feira está ficando mais grudento pra quem precisa emprestar, e a disputa por quem vai ser o próximo chefe da vila está esquentando de um jeito que deixa todo forasteiro de orelha em pé.

Só que a carta chegou no pior dia possível pra cair bem. Na mesma manhã, o preço da feira do mês (aquela conta que todo mundo espera com um misto de torcida e nervoso) veio um tiquinho mais caro do que se esperava. E a ata da última reunião de Dona Selita, publicada horas antes, não deu a certeza que o mercado queria de que o corte no juro ia continuar tão cedo. Somando tudo — carta do avaliador, preço mais caro, ata sem promessa nenhuma e boato de eleição — deu no que deu: quem segue o avaliador de olhos fechados saiu vendendo tudo de uma vez.

O painel da feira grande, onde se negociam as ações de todo mundo, caiu feio: sexto pregão seguido de queda, voltando ao menor nível desde janeiro. A nota verde, essa sim, subiu — foi pro maior valor em mais de um mês. E quem mais sentiu foi justamente quem tinha ações das casas maiores, dos bancos e das mineradoras — o resto da colheita, a das exportadoras, até que segurou melhor a onda.

Só que aqui vai o detalhe que a maioria não parou pra reparar: o avaliador não disse, em nenhum momento, que parou de gostar da Vila Sossego. Continua com a metade dos seus favoritos da região inteira plantados justamente ali. E até o número que ele projeta pro painel da feira no fim do ano só recuou um pouquinho — de 190 mil pra 185 mil, ainda deixando espaço pra alta lá na frente. Ele não mudou de direção. Mudou de convicção — deixou de empurrar com tanta força.

E é curioso como uma carta assim, sem drama nenhum escrito nela, consegue fazer tanto barulho. Não caiu chuva de granizo na Vila Sossego essa semana. Ninguém perdeu a colheita. O que mudou foi só o entusiasmo de um forasteiro cujo bordão, goste-se ou não, ainda pesa mais do que gostaríamos na hora de decidir quem compra o quê.


Quid inde? Às vezes a economia de uma vila inteira não treme porque algo quebrou de verdade — treme porque quem empresta o dinheiro de fora resolveu, de uma canetada, gostar um pouquinho menos.

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*Livre alegoria sobre a semana de 9 a 15 de agosto de 2026: na terça-feira (11/8), o JPMorgan rebaixou a recomendação para ativos brasileiros de "overweight" para "neutro" e reduziu a projeção do Ibovespa ao fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos, citando a proximidade do fim do ciclo de corte de juros, a desaceleração econômica, a deterioração do ciclo de crédito e os riscos eleitorais. No mesmo dia, o IPCA de julho veio em 0,07% (acima da expectativa de 0,03%), a ata do Copom foi lida sem sinal claro de novos cortes, e pesquisas eleitorais mostraram acirramento da disputa presidencial. O Ibovespa fechou em queda de 2,50%, ao menor nível desde janeiro, no sexto pregão consecutivo de perdas, enquanto o dólar subiu a R$ 5,161, maior patamar em mais de um mês, em meio à saída de R$ 5,5 bilhões em capital estrangeiro da B3 na primeira semana de agosto.


sábado, agosto 08, 2026

Dona Selita corta o juro, mas não desfranze a testa

Já fazia semana que todo mundo na Vila Sossego sabia, quase de cor, o que Dona Selita ia fazer na quarta-feira: cortar um quartinho de ponto no juro dela. E cortou mesmo — o quarto corte seguido desde março, uma decisão tão esperada que ninguém nem se deu ao trabalho de apostar diferente. O juro, que estava em 14,25%, foi pra 14%.

Só que o número certo veio embrulhado num clima errado.

Enquanto cortava o juro com uma mão, Dona Selita ergueu o dedo em advertência com a outra. Tirou do discurso algumas frasezinhas mais brandas que costumava usar, deixou o tom mais seco, mais desconfiado — como quem avisa: "estou afrouxando a corda, mas não tirem os olhos de mim, porque a qualquer sinal ruim eu aperto de novo". O povo da feira ficou craque em prever o número e se surpreendeu com a cara amarrada.

E o motivo da cara amarrada mora bem longe da mesa de Dona Selita — mora do outro lado da cerca, na conta de seu Trombone, o banqueiro da cidade grande, que segue segurando o juro dele lá em cima, sem mexer, desde faz tempo. A diferença entre o que Dona Selita cobra e o que seu Trombone cobra já passa de dez pontos inteiros. E é essa diferença — não simpatia, não confiança cega, pura aritmética mesmo — que faz o dinheiro de fora vir feito mosca em melado pra emprestar na Vila Sossego em vez de ficar parado na cidade grande.

É esse motorzinho, aliás, que explica um mistério que muita gente da vila nem percebeu direito: mesmo com toda aquela novela do pedágio na porteira do Grandão, a nota verde não parou de ficar mais barata o ano inteiro. Começou janeiro valendo mais de cinco reais e quarenta centavos, e essa semana fechou beirando cinco e oito centavos. Enquanto o noticiário falava de tarifa, briga e incerteza, o dinheiro estrangeiro simplesmente seguiu fazendo conta e escolhendo onde rendia mais.

Descontada a inflação, o juro que a Vila Sossego paga hoje é o mais gordo entre quarenta economias espalhadas pelo mundo — na frente até da fazenda russa e do sítio colombiano, um título que não rende medalha nenhuma pro povo local, mas que faz qualquer investidor de fora lamber os beiços.

E por que Dona Selita, mesmo cortando, insiste em manter a cara fechada? Porque o rezador do tempo já andou avisando: aquele menino travesso chamado El Niño promete aparecer forte no segundo semestre, prometendo chuva na hora errada e seca onde devia chover, o que pode fazer o preço da roça suar de novo lá pra frente. Corta-se o juro hoje, mas de olho fixo no que a lavoura pode custar amanhã.

Quid inde? Cortar o juro e parecer mais durão no mesmo gesto não é contradição — é estratégia de quem sabe que abrir a mão demais, cedo demais, pode custar caro se o tempo (literalmente) virar contra a vila. E o carinho do dinheiro estrangeiro pela Vila Sossego nunca foi carinho: foi sempre conta de cabeça, comparando o juro daqui com o juro de lá.

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Livre alegoria sobre a semana de 2 a 8 de agosto de 2026: o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual na quarta-feira (5/8), de 14,25% para 14% ao ano, quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março, em decisão unânime — mas o comunicado veio com tom mais duro do que o esperado. O diferencial entre a Selic e os juros americanos (mantidos pelo Fed em 3,50%–3,75%) segue em torno de 10,4 pontos percentuais, o principal motor por trás da queda do dólar de R$ 5,4372, em 2 de janeiro, para a casa de R$ 5,08 no início de agosto. Em termos reais, o Brasil segue com o maior juro real do mundo entre 40 economias monitoradas, à frente de Rússia e Colômbia. Entre os riscos observados pelo Banco Central para o segundo semestre está a expectativa de um El Niño de intensidade forte, que pode pressionar os preços de alimentos.


domingo, agosto 02, 2026

A briga de família que seu Trombone pediu (e recebeu)

 Faz uns meses que seu Trombone assumiu a cadeira principal na mesa dos sócios do banco da cidade grande. E desde o primeiro dia ele avisou um negócio esquisito: não ia mais dar pista de nada. Nem sinalzinho. Os banqueiros da vila inteira estavam acostumados a ler cada gesto do antigo sócio-chefe como quem lê nuvem prevendo chuva, mas seu Trombone cortou essa mordomia. "Prefiro que a gente discuta de verdade, brigue se precisar brigar, do que fingir concordância", falou ele, mais de uma vez, chamando isso de "boa briga de família".

Essa semana, seu Trombone ganhou exatamente a briga que pediu.

Na quarta, reunida a mesa toda, ele decidiu — pela quinta vez seguida — segurar o juro grande onde já estava, sem mexer uma vírgula, alegando que a novela lá do vale (aquela briga antiga por causa do poço) ainda deixa o preço do combustível bagunçado demais pra arriscar qualquer lado. Só que três dos sócios mais respeitados da mesa — gente que não costuma contrariar o chefe à toa — bateram o pé dizendo que não, que era hora de subir o juro, não de ficar parado feito boi mocho. Foi a maior debandada de opinião que aquela mesa via em quase dez anos.

E o mais curioso: seu Trombone saiu do salão sorrindo. Não se incomodou nem um pouco com a rusga pública. "Pedi uma boa briga de família, e ganhei", disse ele à saída, avisando que não pretende soltar pista nenhuma sobre o que vem por aí — quem quiser adivinhar, que preste atenção nos fatos, não em promessa de banqueiro.

Enquanto isso, do outro lado da cerca, na Vila Sossego, a notícia da semana foi bem mais amena. A prévia do preço do mês — aquela conta que o feirante tira antes da feira grande fechar — veio bem mais fraca do que qualquer um esperava: a verdura e o feijão baratearam mais do que o previsto, e a alta acumulada do ano recuou de quase 4,8% para 4,5%. Foi tanto alívio que Dona Selita, a agiota que decide o juro por aqui, ganhou uma folga rara: o mercado inteiro já aposta que ela vai cortar um pouquinho o juro local na próxima quarta.

Curioso, não? Na cidade grande, o sócio-chefe comemora briga pública e se recusa a dar sinal do que vem. Na vila pequena, foi justamente o silêncio dos preços — a verdura que não subiu como se temia — quem abriu, sem alarde, a porta para um respiro no crédito.

Quid inde? Tem semana em que o juro do mundo inteiro não se decide numa mesa de reunião solene, cheia de terno e microfone, mas numa feira de sexta-feira, no preço do feijão que custou um tostão a menos do que se temia. E tem sócio-chefe que gosta mesmo é de ver a mesa discordando dele em voz alta — sinal, segundo ele, de que ninguém ali está fingindo concordar.

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Livre alegoria sobre a semana de 26 de julho a 1º de agosto de 2026: o Federal Reserve, sob a presidência de Kevin Warsh (que assumiu defendendo debates internos mais abertos, o chamado "family fight"), manteve os juros em 3,50%–3,75% pela quinta reunião seguida, em decisão não unânime — três dirigentes regionais divergiram a favor de uma alta, a maior dissidência desde 2016, em meio à incerteza gerada pelo conflito no Oriente Médio. No Brasil, o IPCA-15 de julho surpreendeu ao vir bem abaixo do esperado (0,06%, ante projeção de 0,22%), com o acumulado em 12 meses recuando para 4,52%, reforçando as apostas de corte de 0,25 ponto na Selic na reunião do Copom marcada para 5 de agosto. O Ibovespa fechou a semana e o mês em alta, enquanto o dólar recuou cerca de 0,25% na semana.


sábado, julho 25, 2026

O canivete de graça

(continuação de "O pedágio na porteira do Grandão") 

Lembra do pedágio que o capataz da Fazenda do Grandão pregou na porteira, prometendo cobrar 25% a mais de quem vendesse por lá a partir do dia 22? Pois é: a terça virou quarta, bateu uma da manhã, e o pedágio começou a valer de verdade. Quem já tinha carroça na estrada antes da meia-noite ainda ganhou um alívio: se chegasse lá até a semana seguinte, passava sem pagar o extra. Depois disso, não tem choro: o antigo pedágio de 5% e o novo de 25% se somam, e quem antes pagava pouco passa a entregar quase um terço do carregamento na porteira. 

Só que a parte mais curiosa da história não estava na lista de produtos. Estava na explicação. 

Porque, junto da conta, o capataz mandou também um caderno com os motivos da cobrança — e um deles pegou todo mundo de surpresa: reclamava do rapaz conhecido como Zeca do Pix. 

Zeca é filho de lavrador, criou um caderninho mágico que qualquer um do vilarejo usa para pagar o outro na hora, sem fila, sem taxa, sem precisar daquela maquininha de ferro que cobrava uma fatia de cada venda. A invenção pegou tanto que ninguém mais quis saber de maquininha — e adivinha só de quem era a maquininha que ficou parada, juntando poeira no balcão? Justamente de um primo distante do pessoal do Grandão, que vivia da tal fatia. 

No caderno de reclamações, o capataz escreveu, com todas as letras, que o caderninho grátis do Zeca "compete de forma desleal" com o negócio da maquininha da família. Ao lado dessa, outras queixas: que a vila protege demais seus próprios comerciantes, que trata mal patente e cópia de invento, que dá preço menor pra lavoura de cana de outros vizinhos e não pro Grandão. Curiosamente, ninguém no vilarejo tinha pensado que o caderninho de pagar sem taxa um dia viraria motivo de briga de fazenda grande — pareceu, pra maioria, só uma boa ideia que pegou. 

Seu Louro, dono do sítio vizinho, dessa vez não escreveu carta braba nenhuma. Decidiu outro caminho: manter a porteira aberta pro Grandão, ajudar quem no sítio ficou mais espremido pelo pedágio novo, e sair batendo perna em feiras de outras bandas pra vender o que sobrou. Nada de cobrar pedágio de volta, por enquanto. 

E o mais engraçado de tudo: apesar do estardalhaço, o trocador de moedas da praça fechou a semana quase parado — a nota verde valia praticamente o mesmo de segunda pra sexta, até um pouquinho mais barata que na semana anterior. Quem apostou que o susto do pedágio ia derrubar o valor do dinheiro local perdeu a aposta, pelo menos por enquanto. 

Quid inde? Às vezes a fazenda grande não briga só por causa de boi, sapato ou aço — briga também por causa de uma boa ideia que deu certo demais e tirou o sono de um negócio velho do outro lado da cerca. E o mercado, esperto e teimoso como sempre, nem sempre reage do jeito que a novela promete. 

Livre alegoria sobre a semana de 21 a 25 de julho de 2026: a tarifa adicional de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entrou em vigor à 1h01 (horário de Brasília) do dia 22/7, somando-se à alíquota já existente (um produto que pagava 5% passou a pagar 30%), com regra de transição para mercadorias já embarcadas até 29/7. Entre as justificativas do USTR para a medida está a alegação de que o Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, seria um "campeão nacional" que gera condições desleais de competição para empresas americanas de pagamento eletrônico — ao lado de queixas sobre comércio digital, tarifas preferenciais, etanol e desmatamento. O governo brasileiro optou por manter negociações, apoiar os setores afetados e buscar novos mercados, sem reciprocidade imediata. Apesar da tensão, o dólar fechou a semana estável, em R$ 5,08, com queda de 0,58% no acumulado semanal.

sábado, julho 18, 2026

O pedágio na porteira do Grandão

 Seu Louro tem um sítio bonito. Planta de tudo: café, laranja, boi gordo, cana, e ainda montou uma oficina que fabrica peça de avião e outra que faz sapato bom, dos que duram. Seu maior cliente, desde sempre, é a Fazenda do Zé Grandão, do lado de lá da cerca — uma propriedade tão grande que até tem bandeira própria e um coronel que ninguém sabe direito de onde tira tanta autoridade, o povo da região só chama de Grandão.

Fazia anos que a picada entre os dois sítios estava bem tratada: caminhão passando de um lado para o outro, conta batendo, ninguém reclamando de nada. Seu Louro, aliás, vendia mais para o Grandão do que comprava dele — mas isso é outra conversa, de que ele nem lembrava direito.

Até que, numa quarta à noite, o capataz do Grandão manda um recado pregado na porteira: a partir do dia 22, vai cobrar um pedágio de 25% em cima de boa parte do que sair do sítio de Seu Louro rumo à fazenda. O motivo alegado foi uma rusga velha, de família, que não tinha nada a ver com preço de boi nem com qualidade de café — mas o coronel decidiu que a conta ia ser assim mesmo.

Junto do recado veio uma lista enorme de coisas que ficaram de fora do pedágio: o boi, o café, a laranja, a peça de avião. Um gesto de "generosidade" que deixou meio mundo aliviado. Só que o sapateiro do sítio, seu Ferrari das Botinas, não teve a mesma sorte: o sapato dele ficou de fora da lista de perdão, e ele já foi refazendo as contas do ano, prevendo vender bem menos lá fora.

Seu Louro não gostou nadinha. Escreveu uma carta em resposta chamando o dia do recado de "data lastimável" na história da vizinhança, disse que não reconhecia motivo nenhum pra cobrança, lembrou que o Grandão vinha lucrando com ele havia anos, e avisou que ia levar o caso ao juiz da feira grande — aquele que resolve briga entre fazendas de todo canto. Chegou a cogitar cobrar pedágio de volta, no mesmo tamanho, se o coronel não recuasse.

O barulho da briga chegou até a feira do povoado. O trocador de moedas da praça, que vende dólar do Grandão em troca do dinheiro local, aproveitou a confusão para subir o preço da nota verde — foi a R$ 5,10, maior valor em semanas. A roda de negociantes da vila, que só ontem estava contando as ações em alta, viu tudo desandar: quem vendia sapato, aço e papel para o Grandão amargou perda no dia, enquanto quem vendia boi e café até que escapou puxando a feira de volta pra cima no fim da tarde.

E não parou por aí. Enquanto essa novela rolava, lá longe seguia aquela outra briga feia por causa de um poço de petróleo, deixando o preço do combustível nervoso; e seu Trombone, o banqueiro que decide o juro grande, ainda nem tinha se pronunciado — a reunião dele só é daqui a duas semanas. Um comerciante resumiu bem, tomando cafezinho na porta da mercearia: "ninguém sabe de nada ao certo, porque o pedágio só passa a valer de verdade dia 22, a guerra do poço não acabou, e o Trombone ainda não abriu a boca. Enquanto isso, é foguetório de notícia todo santo dia."

Seu Louro fechou o portão do sítio pensando na conta nova que vai ter de pagar. Não porque plantou errado, nem porque o boi emagreceu — a colheita seguia igual à de sempre. A diferença toda nasceu de uma canetada na porteira do vizinho mais forte.

Quid inde? Numa feira de portas abertas há décadas, o preço do seu produto pode despencar sem que você tenha mudado uma vírgula no seu jeito de trabalhar. Basta o vizinho grande resolver, de uma hora para outra, cobrar pedágio novo — e o resto da feira aprende, mais uma vez, como fica pequeno o mundo quando o bolso de todo mundo depende da caneta de poucos.


Livre alegoria sobre a semana de 14 a 18 de julho de 2026: os Estados Unidos confirmaram, na noite de 15/7, uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros (com base na Seção 301), a entrar em vigor em 22/7, poupando itens como carne bovina, café, suco de laranja e componentes aeronáuticos, mas não o setor calçadista, o aço e o papel. O governo brasileiro classificou a data como um "marco lastimável", rejeitou a legitimidade da medida e cogita recorrer à OMC e à Lei de Reciprocidade Econômica. Em reação, o dólar fechou a R$ 5,10 e o Ibovespa recuou 1,24% na quinta-feira (16/7). No pano de fundo, seguem o conflito no Oriente Médio pressionando o petróleo e a expectativa pela reunião do Federal Reserve, marcada para 28 e 29 de julho.