domingo, setembro 27, 2026

O desconto que a luz devolveu (e depois cobrou de volta)*

Mês passado a gente contou aqui como um desconto na conta de luz ajudou a derrubar o preço da feira e deu a Dona Selita confiança de sobra pra cortar o juro dela. Pois esse mês veio a parte da história que todo mundo sabia, no fundo, mas ninguém gostava de lembrar: aquele desconto era emprestado, não de graça — e a conta, mais cedo ou mais tarde, cobraria de volta.

Explico rapidinho pra quem não acompanhou: a usina do rio grande, dona da represa que ilumina a vila inteira, tinha sobrado dinheiro de um acerto de contas antigo e resolveu devolver uma fatia pro povo, batendo direto na conta de luz de agosto. Foi festa — a conta veio bem mais barata, o preço da feira caiu de surpresa, todo mundo comemorou junto. Só que era presente de vez única, não promessa de conta barata pra sempre.

Chegou setembro, o presente acabou — e, sem ele, a conta de luz simplesmente voltou ao tamanho normal. Só que, comparada com o mês anterior (que estava artificialmente baixo), pareceu ter disparado: mais de 7% de alta só na luz. Somando um tomate que ficou 20% mais caro e a passagem que também subiu, a prévia do preço do mês veio em 0,70% — quase o dobro do que os feirantes mais experientes tinham calculado.

E aí vem a parte mais engraçada da semana: na mesmíssima manhã em que essa notícia caiu como balde de água fria sobre a vila, chegou aviso de bem longe, lá do tal vale da velha guerra do poço — os dois lados finalmente se sentaram numa mesa de conversa, numa cidade distante, e o preço do combustível, que vinha subindo sem parar, deu uma boa recuada. Duas notícias que, normalmente, costumam andar de mãos dadas — combustível caro puxa preço de tudo pra cima — resolveram, dessa vez, ir cada uma pro seu canto, no mesmo dia, deixando os feirantes coçando a cabeça sem saber qual das duas explicações confiar.

A ata da última reunião de Dona Selita, publicada dias antes desse susto, já vinha com tom cauteloso, repetindo que o preço geral ainda corre acima do que a vila persegue e que as expectativas seguem elevadas. Agora, com o solavanco de setembro no colo, os feirantes mais antigos brigam sem chegar a acordo: uns acham que ela ainda vai cortar de novo em novembro, outros já apostam que ela prefere segurar a mão dessa vez. E tudo isso acontece bem na última semana antes da eleição do novo chefe da vila — o que deixa cada centavo que sobe ou desce sendo lido com uma lupa a mais na mão.

Quid inde? Um desconto de uma vez só nunca é o mesmo que preço mais barato pra sempre — e quem comemora a queda sem perguntar de onde ela veio corre o risco de levar o susto contrário, do mesmo tamanho, assim que o presente acabar.

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*Livre alegoria sobre a semana de 20 a 26 de setembro de 2026: o IPCA-15 de setembro veio em 0,70%, revertendo a deflação de 0,40% de agosto e quase dobrando a mediana esperada pelo mercado (0,53%), impulsionado sobretudo pelo fim do Bônus de Itaipu — o desconto temporário creditado na conta de luz em agosto —, que fez a energia elétrica residencial subir 7,42% no mês. O acumulado em 12 meses avançou de 4,24% para 4,47%. No mesmo dia, o petróleo Brent recuou de cerca de US$ 106 para perto de US$ 98 o barril, em meio a notícias de negociações em Nova York envolvendo o conflito no Oriente Médio. A ata do Copom, divulgada nos dias anteriores, manteve tom cauteloso quanto ao ritmo de novos cortes da Selic (em 13,75% desde 16/9), e o mercado ficou dividido: parte dos analistas ainda projeta cortes em novembro e dezembro, enquanto outra parte já cogita manutenção na próxima reunião. O dólar fechou a semana em alta de 0,81%, a R$ 5,1991, embora ainda acumule queda de 5,51% no ano. A semana também marcou a reta final antes do primeiro turno das eleições presidenciais.


domingo, setembro 20, 2026

A quarta em que as duas manivelas giraram ao contrário

 

Semana passada, aqui mesmo, eu contei que tudo indicava que Dona Selita ia afrouxar o juro dela enquanto seu Trombone ia apertar o dele, do outro lado da cerca. Pois bem: aconteceu. E não aconteceu só na mesma semana — aconteceu na mesma quarta-feira, quase na mesma hora, como se as duas praças tivessem combinado (sem combinar nada) de girar a manivela do dinheiro em direções opostas debaixo do mesmo relógio.

Na Vila Sossego, Dona Selita cortou um quartinho de ponto — o quinto corte seguido desde que começou a soltar a corda, lá no ciclo que já dura mais de meio ano. O juro local foi de 14% pra 13,75%. Mas, como já é praxe dela, veio corte com cara séria: nada de prometer mais alívio na próxima reunião, que só volta a acontecer em novembro. "Vamos com calma, olhando cada preço que aparecer pela frente", foi o recado, mais ou menos assim.

Do outro lado da cerca, na cidade grande, seu Trombone fez o oposto: subiu o juro dele em um quartinho de ponto, a primeira alta em três anos inteiros — desde que ele mesmo assumiu a cadeira, aliás, nunca tinha subido nada, só segurado. A decisão saiu sem um voto contra, todos os sócios concordando. A explicação foi direta: o preço lá andava "alto demais, por tempo demais demais", nas palavras dele. E teve um detalhe e tanto: o próprio coronel Tio Sam — aquele que colocou seu Trombone na cadeira, lá atrás — andou reclamando publicamente que não queria alta nenhuma. Seu Trombone e os sócios subiram o juro do mesmo jeito, sem se abalar com a bronca do padrinho. E, pra quem esperava alívio depois dessa primeira subida, veio mais um recado seco: de dezoito sócios que dão palpite sobre o futuro, dezesseis já sinalizam que deve ter mais uma alta ainda esse ano.

Reparem no contraste bonito dessa história: na mesma tarde, no mesmo relógio, uma praça soltou a corda e a outra apertou — cada uma respondendo ao próprio preço, à própria colheita, à própria guerra distante que segue empurrando o combustível pra cima do lado de lá. Nenhuma delas se importou muito com o que a vizinha estava fazendo. Dona Selita não corta pensando em seu Trombone, e seu Trombone não sobe pensando em Dona Selita — cada um decide olhando só pro próprio quintal, mesmo sabendo que o efeito de um sempre acaba escapando pela cerca e chegando no outro.

Quid inde? Duas economias vizinhas podem girar a manivela do dinheiro em direções opostas no mesmíssimo instante, e ainda assim as duas estarem certas — cada uma lendo direito o próprio termômetro. E fica a lição menor, mas nada desprezível: até quem coloca o banqueiro na cadeira nem sempre consegue dizer pra que lado ele vai virar a manivela quando chega a hora.


Livre alegoria sobre a semana de 13 a 19 de setembro de 2026: na quarta-feira (16/9), o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano — quinto corte consecutivo do ciclo —, sinalizando cautela e dependência de dados para os próximos passos, com a próxima reunião prevista apenas para novembro. No mesmo dia, o Federal Reserve elevou os juros americanos em 0,25 ponto, de 3,50%–3,75% para 3,75%–4,00%, em decisão unânime — a primeira alta desde 2023, revertendo cinco reuniões seguidas de estabilidade e ocorrendo apesar da resistência pública do presidente Donald Trump à medida. O presidente do Fed, Kevin Warsh, justificou a decisão afirmando que a inflação americana está "muito alta há muito tempo"; as novas projeções do Comitê elevaram a mediana esperada para os juros no fim de 2026 para 4,1%, com 16 dos 18 participantes sinalizando pelo menos mais uma alta ainda este ano.

sábado, setembro 12, 2026

Enquanto Dona Selita afrouxa, seu Trombone aperta o parafuso*

Faz tempo que a gente vem contando aqui, semana após semana, como Dona Selita e seu Trombone decidem o juro de suas respectivas praças. Pois essa foi a semana em que os dois caminhos, que já vinham se afastando devagar, ficaram de vez em direções opostas.

Começa pela Vila Sossego. Saiu a prévia do preço do mês, aquela conta que todo feirante espera com o coração na mão, e veio surpresa: os preços não subiram, caíram — e caíram bem mais do que qualquer um apostava, a queda mais forte em quatro anos. O motivo principal foi a conta de luz, que baixou bastante graças a um desconto repassado ao povo. Com isso, o preço acumulado no ano ficou, pela segunda vez seguida, dentro da faixa que a vila persegue há tempos. Resultado: Dona Selita ganhou ainda mais confiança pra cortar o juro dela na próxima reunião, exatamente como o mercado já vinha esperando.

Agora atravessa a cerca e olha o que aconteceu na cidade grande.

Lá, o preço do mês não amoleceu nadinha — ficou correndo no mesmo ritmo apertado do mês anterior. E o vilão, dessa vez, foi o combustível: o galão que há um ano custava um preço, hoje custa quase 30% a mais, empurrado pela véia guerra do poço, que já passa dos seis meses sem trégua. Some a isso um mês de contratação de trabalhadores muito mais forte do que ninguém esperava, e o resultado foi uma virada e tanto: quem, até pouco tempo, apostava que seu Trombone ia manter o juro dele parado agora acha bem mais provável que ele resolva subir o juro na reunião da semana que vem — coisa que quase ninguém levava a sério lá no começo do ano.

Curioso comparar as duas pontas da mesma semana. De um lado da cerca, o alívio na conta de luz abre a porta pro corte de juro. Do outro, o preço teimoso do combustível — puxado por uma guerra que a vila nem participa — quase empurra o juro pra cima. Duas praças vizinhas, dois climas completamente diferentes, cada uma vivendo sua própria estação.

E tem mais um detalhe que os feirantes mais antigos comentaram essa semana, cochichando na sombra do galpão: o painel da feira da Vila Sossego, que só nesse mês já engordou mais de 6%, segue subindo puxado quase inteiramente pelo próprio povo local — os bancos, sobretudo. Aquele forasteiro de quem falamos há duas semanas, rondando o portão, ainda não voltou de vez pra festa. A alta, por enquanto, é festa de vizinho, sem visita de fora confirmada.

Quid inde? Duas economias podem morar cerca a cerca e, ainda assim, viver estações completamente diferentes ao mesmo tempo — uma colhendo o alívio de uma conta de luz mais barata, a outra presa numa guerra de petróleo que não dá trégua nenhuma. E cada uma decide seu próprio juro pensando exatamente nisso, sem se importar muito com o clima do vizinho.

sábado, setembro 05, 2026

A porteira que quase abriu (e a que fechou sem avisar)

 

(mais um capítulo de "O pedágio na porteira do Grandão")

Depois de semanas de bate-boca, essa foi a primeira em que o vento pareceu soprar mais brando do lado da Fazenda do Grandão. O capataz avisou que novas conversas estão marcadas pras próximas semanas, e correu forte o boato de que o próprio coronel Tio Sam teria orientado seu pessoal a buscar um acordo com Seu Louro, em vez de continuar cobrando pedágio pesado igual antes. Seu Louro, animado, mandou recado de volta dizendo que dá, sim, pra sair dessa com ganho pros dois lados.

Só que, no meio da esperança de uma porteira se abrindo de um lado, veio o balde de água fria do outro.

Um velho comprador de Seu Louro, lá da região distante que todo mundo chama de Velho Continente, avisou de supetão que ia parar de comprar boi dele a partir de quinta-feira. E olha a ironia: era justamente a carne — o item que, lá atrás, tinha escapado ileso do pedágio do Grandão, um dos poucos que a lista de exceções tinha poupado. Livrou-se de uma porteira fechada só pra topar com outra, do lado oposto do mapa, batendo na cara sem aviso prévio de briga nenhuma.

Enquanto isso, na própria roça de Seu Louro, a colheita seguia crescendo — só que mais devagarinho do que antes. O relatório trimestral mostrou que a produção cresceu na metade do ritmo do trimestre anterior. E o motivo não é segredo pra quem acompanha essa história há meses: tudo que depende de pedir dinheiro emprestado pra plantar segue sentindo o peso do juro alto de Dona Selita, enquanto só a lavoura mais resistente — grão e poço de petróleo, que não precisam tanto de financiamento — continuou puxando o carro sozinha.

E, pra fechar a semana com uma boa notícia no meio de tanta novela: mesmo com porteira balançando de um lado e fechando do outro, Seu Louro conseguiu vender lá fora mais do que o esperado — o saldo do mês veio bem mais gordo do que qualquer analista tinha calculado, prova de que uma roça bem plantada arruma comprador mesmo quando a vizinhança está em polvorosa.

Quid inde? Uma fazenda que depende de um único portão pra escoar a colheita vive na corda bamba: basta um vizinho amolecer o gênio que outro, do lado oposto do mapa, resolve fechar o dele sem sequer mandar recado antes. Sobrevive melhor quem planta variado e tem porta pra todo lado — e quem, mesmo com o juro puxando o freio, ainda garante um pé de meia de sobra no fim do mês.


* Livre alegoria sobre a semana de 30 de agosto a 5 de setembro de 2026: no front comercial com os Estados Unidos, o ministério da Fazenda sinalizou que novas rodadas de negociação sobre o tarifaço estão previstas para as próximas semanas, com relatos de que o próprio presidente americano teria orientado a equipe a buscar um acordo com o Brasil, e o vice-presidente Alckmin declarou otimismo com uma solução "ganha-ganha". No mesmo período, a União Europeia anunciou a suspensão das importações de carne bovina brasileira a partir de quinta-feira (3/9). Já no campo doméstico, o IBGE informou que o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre ante o primeiro (dessazonalizado), pouco acima da expectativa de mercado (0,4%), mas menos da metade do avanço de 1,1% do trimestre anterior, confirmando a perda de fôlego da atividade — crescimento puxado pela agropecuária (+2,8%) e pela indústria extrativa (+3,4%, com petróleo e gás), setores menos sensíveis ao juro alto. Na balança comercial, as exportações somaram US$ 33,2 bilhões em agosto, levando a um superávit de US$ 7,4 bilhões, acima da estimativa média dos analistas. O Boletim Focus manteve a projeção do câmbio para o fim de 2026 em R$ 5,20 e reduziu ligeiramente as projeções de IPCA (para 5,01%) e PIB (para 1,92%) do ano.