sábado, agosto 08, 2026

Dona Selita corta o juro, mas não desfranze a testa

Já fazia semana que todo mundo na Vila Sossego sabia, quase de cor, o que Dona Selita ia fazer na quarta-feira: cortar um quartinho de ponto no juro dela. E cortou mesmo — o quarto corte seguido desde março, uma decisão tão esperada que ninguém nem se deu ao trabalho de apostar diferente. O juro, que estava em 14,25%, foi pra 14%.

Só que o número certo veio embrulhado num clima errado.

Enquanto cortava o juro com uma mão, Dona Selita ergueu o dedo em advertência com a outra. Tirou do discurso algumas frasezinhas mais brandas que costumava usar, deixou o tom mais seco, mais desconfiado — como quem avisa: "estou afrouxando a corda, mas não tirem os olhos de mim, porque a qualquer sinal ruim eu aperto de novo". O povo da feira ficou craque em prever o número e se surpreendeu com a cara amarrada.

E o motivo da cara amarrada mora bem longe da mesa de Dona Selita — mora do outro lado da cerca, na conta de seu Trombone, o banqueiro da cidade grande, que segue segurando o juro dele lá em cima, sem mexer, desde faz tempo. A diferença entre o que Dona Selita cobra e o que seu Trombone cobra já passa de dez pontos inteiros. E é essa diferença — não simpatia, não confiança cega, pura aritmética mesmo — que faz o dinheiro de fora vir feito mosca em melado pra emprestar na Vila Sossego em vez de ficar parado na cidade grande.

É esse motorzinho, aliás, que explica um mistério que muita gente da vila nem percebeu direito: mesmo com toda aquela novela do pedágio na porteira do Grandão, a nota verde não parou de ficar mais barata o ano inteiro. Começou janeiro valendo mais de cinco reais e quarenta centavos, e essa semana fechou beirando cinco e oito centavos. Enquanto o noticiário falava de tarifa, briga e incerteza, o dinheiro estrangeiro simplesmente seguiu fazendo conta e escolhendo onde rendia mais.

Descontada a inflação, o juro que a Vila Sossego paga hoje é o mais gordo entre quarenta economias espalhadas pelo mundo — na frente até da fazenda russa e do sítio colombiano, um título que não rende medalha nenhuma pro povo local, mas que faz qualquer investidor de fora lamber os beiços.

E por que Dona Selita, mesmo cortando, insiste em manter a cara fechada? Porque o rezador do tempo já andou avisando: aquele menino travesso chamado El Niño promete aparecer forte no segundo semestre, prometendo chuva na hora errada e seca onde devia chover, o que pode fazer o preço da roça suar de novo lá pra frente. Corta-se o juro hoje, mas de olho fixo no que a lavoura pode custar amanhã.

Quid inde? Cortar o juro e parecer mais durão no mesmo gesto não é contradição — é estratégia de quem sabe que abrir a mão demais, cedo demais, pode custar caro se o tempo (literalmente) virar contra a vila. E o carinho do dinheiro estrangeiro pela Vila Sossego nunca foi carinho: foi sempre conta de cabeça, comparando o juro daqui com o juro de lá.

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Livre alegoria sobre a semana de 2 a 8 de agosto de 2026: o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual na quarta-feira (5/8), de 14,25% para 14% ao ano, quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março, em decisão unânime — mas o comunicado veio com tom mais duro do que o esperado. O diferencial entre a Selic e os juros americanos (mantidos pelo Fed em 3,50%–3,75%) segue em torno de 10,4 pontos percentuais, o principal motor por trás da queda do dólar de R$ 5,4372, em 2 de janeiro, para a casa de R$ 5,08 no início de agosto. Em termos reais, o Brasil segue com o maior juro real do mundo entre 40 economias monitoradas, à frente de Rússia e Colômbia. Entre os riscos observados pelo Banco Central para o segundo semestre está a expectativa de um El Niño de intensidade forte, que pode pressionar os preços de alimentos.


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