(continuação de "O forasteiro mudou de ideia sobre a safra")
Semana passada contamos aqui como o avaliador de fora esfriou o entusiasmo com a Vila Sossego, e como o painel da feira grande desabou no dia seguinte à carta dele. Pois quem imaginou que o estrago parava por ali se enganou feio: a fila de pregões no vermelho não teve dó, esticou até completar onze dias seguidos de queda — uma miséria tão comprida que virou assunto até na fila do padeiro Seu Tico, que nem costuma acompanhar feira.
Só que essa semana o vento virou.
Lá na cidade grande, o juro dos títulos mais compridos deu uma amansada, tirando um peso enorme do colo dos investidores do mundo inteiro. Por aqui, o gado — quer dizer, as ações da mineradora, que tinham puxado boa parte da fila de queda — voltou a subir com gosto, e os bancos foram atrás. Na sexta, o painel fechou em alta de quase 2%, emendando o terceiro pregão seguido de recuperação, e a semana terminou com ganho de perto de 2,4%.
Bonito de ver, sem dúvida. Mas tem dois detalhes que valem mais do que o número da sexta-feira.
Primeiro: olhando agosto inteiro, a feira segue no vermelho. A queda acumulada nas semanas anteriores foi tão funda que três dias de festa não bastaram pra cobrir o rombo — o mês, até aqui, ainda fecha negativo.
Segundo, e mais importante: quem voltou a comprar dessa vez foi sobretudo o próprio povo da vila. O forasteiro que esfriou o entusiasmo semana passada nem apareceu de volta. Pelo contrário — o dinheiro de fora continuou de malas prontas: só em agosto, já passa de vinte e dois bilhões saindo da feira, mesmo com o painel subindo nesses últimos três dias. É um gado que voltou pro curral pelas próprias pernas, sem convite de ninguém de fora.
E, pra fechar a semana com direito a novela extra: lá longe, na briga antiga pelo poço, o coronel da fazenda mais forte ameaçou fechar negócio com qualquer vizinho que ainda comercie com o dono do poço, e o preço do combustível disparou de novo — mais de 6% de alta só essa semana. A tal guerra velha, que a gente já contou aqui outras vezes, segue sem dar trégua, e cada susto novo lá do vale ainda balança o preço de tudo por aqui.
Quid inde? Uma festa na feira que nasce de dentro pra fora — puxada pelo próprio povo, sem o forasteiro batendo palma — é bonita de ver, mas caminha em pernas mais frágeis do que aquela que convence o mundo inteiro a voltar. O gado recolheu ao curral sozinho; falta ainda o dono de fora aparecer no portão pra dizer que confia de novo.
* Livre alegoria sobre a semana de 16 a 22 de agosto de 2026: após o rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan (11/8), o Ibovespa emendou onze pregões consecutivos de queda antes de reverter o quadro na reta final da semana, puxado pela alívio nos juros dos Treasuries americanos de longo prazo e pela recuperação de Vale e dos grandes bancos. O índice fechou a sexta-feira (21/8) em alta de 1,85%, aos 171.031 pontos, acumulando ganho semanal de cerca de 2,4% — ainda que agosto, no mês, permaneça no negativo. O dólar fechou a semana em queda, cotado a R$ 5,14. Apesar da recuperação, investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 22 bilhões da bolsa brasileira em agosto até o dia 19, sinal de que o movimento de alta teve caráter mais técnico e doméstico do que estrutural. No cenário externo, o petróleo (Brent) subiu cerca de 6,4% na semana, após novas ameaças de sanções dos EUA a parceiros comerciais do Irã, reacendendo a tensão no Oriente Médio. Nos EUA, o Federal Reserve segue sob atenção do mercado ante o Simpósio de Jackson Hole, com o primeiro discurso do presidente Kevin Warsh no cargo previsto para a semana seguinte (27 a 29 de agosto).
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