sábado, setembro 12, 2026

Enquanto Dona Selita afrouxa, seu Trombone aperta o parafuso*

Faz tempo que a gente vem contando aqui, semana após semana, como Dona Selita e seu Trombone decidem o juro de suas respectivas praças. Pois essa foi a semana em que os dois caminhos, que já vinham se afastando devagar, ficaram de vez em direções opostas.

Começa pela Vila Sossego. Saiu a prévia do preço do mês, aquela conta que todo feirante espera com o coração na mão, e veio surpresa: os preços não subiram, caíram — e caíram bem mais do que qualquer um apostava, a queda mais forte em quatro anos. O motivo principal foi a conta de luz, que baixou bastante graças a um desconto repassado ao povo. Com isso, o preço acumulado no ano ficou, pela segunda vez seguida, dentro da faixa que a vila persegue há tempos. Resultado: Dona Selita ganhou ainda mais confiança pra cortar o juro dela na próxima reunião, exatamente como o mercado já vinha esperando.

Agora atravessa a cerca e olha o que aconteceu na cidade grande.

Lá, o preço do mês não amoleceu nadinha — ficou correndo no mesmo ritmo apertado do mês anterior. E o vilão, dessa vez, foi o combustível: o galão que há um ano custava um preço, hoje custa quase 30% a mais, empurrado pela véia guerra do poço, que já passa dos seis meses sem trégua. Some a isso um mês de contratação de trabalhadores muito mais forte do que ninguém esperava, e o resultado foi uma virada e tanto: quem, até pouco tempo, apostava que seu Trombone ia manter o juro dele parado agora acha bem mais provável que ele resolva subir o juro na reunião da semana que vem — coisa que quase ninguém levava a sério lá no começo do ano.

Curioso comparar as duas pontas da mesma semana. De um lado da cerca, o alívio na conta de luz abre a porta pro corte de juro. Do outro, o preço teimoso do combustível — puxado por uma guerra que a vila nem participa — quase empurra o juro pra cima. Duas praças vizinhas, dois climas completamente diferentes, cada uma vivendo sua própria estação.

E tem mais um detalhe que os feirantes mais antigos comentaram essa semana, cochichando na sombra do galpão: o painel da feira da Vila Sossego, que só nesse mês já engordou mais de 6%, segue subindo puxado quase inteiramente pelo próprio povo local — os bancos, sobretudo. Aquele forasteiro de quem falamos há duas semanas, rondando o portão, ainda não voltou de vez pra festa. A alta, por enquanto, é festa de vizinho, sem visita de fora confirmada.

Quid inde? Duas economias podem morar cerca a cerca e, ainda assim, viver estações completamente diferentes ao mesmo tempo — uma colhendo o alívio de uma conta de luz mais barata, a outra presa numa guerra de petróleo que não dá trégua nenhuma. E cada uma decide seu próprio juro pensando exatamente nisso, sem se importar muito com o clima do vizinho.


*Livre alegoria sobre a semana de 6 a 12 de setembro de 2026: no Brasil, o IPCA de agosto registrou deflação de 0,32% — a queda mais intensa em quatro anos —, puxada principalmente pelo recuo da energia elétrica (bônus de Itaipu), levando o acumulado em 12 meses a 4,22%, dentro da meta pelo segundo mês seguido e reforçando a expectativa de corte da Selic na reunião do Copom da semana seguinte. Nos EUA, o CPI de agosto veio em linha com o esperado no índice cheio (+0,4% no mês, +3,4% em 12 meses), mas com núcleo levemente acima da previsão (+0,3%), pressionado pelos preços de energia em meio ao conflito no Oriente Médio, que já dura mais de seis meses; combinado a um payroll de agosto muito mais forte que o esperado, o mercado passou a atribuir cerca de 85% de probabilidade a uma alta de juros pelo Fed na reunião de 15 e 16 de setembro, sob a presidência de Kevin Warsh. No mesmo período, o Ibovespa renovou máximas acima dos 188 mil pontos, com analistas destacando que a alta segue sendo sustentada majoritariamente por fluxo doméstico, sem confirmação clara de retorno do capital estrangeiro.

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