Depois de semanas de bate-boca, essa foi a primeira em que o vento pareceu soprar mais brando do lado da Fazenda do Grandão. O capataz avisou que novas conversas estão marcadas pras próximas semanas, e correu forte o boato de que o próprio coronel Tio Sam teria orientado seu pessoal a buscar um acordo com Seu Louro, em vez de continuar cobrando pedágio pesado igual antes. Seu Louro, animado, mandou recado de volta dizendo que dá, sim, pra sair dessa com ganho pros dois lados.
Só que, no meio da esperança de uma porteira se abrindo de um lado, veio o balde de água fria do outro.
Um velho comprador de Seu Louro, lá da região distante que todo mundo chama de Velho Continente, avisou de supetão que ia parar de comprar boi dele a partir de quinta-feira. E olha a ironia: era justamente a carne — o item que, lá atrás, tinha escapado ileso do pedágio do Grandão, um dos poucos que a lista de exceções tinha poupado. Livrou-se de uma porteira fechada só pra topar com outra, do lado oposto do mapa, batendo na cara sem aviso prévio de briga nenhuma.
Enquanto isso, na própria roça de Seu Louro, a colheita seguia crescendo — só que mais devagarinho do que antes. O relatório trimestral mostrou que a produção cresceu na metade do ritmo do trimestre anterior. E o motivo não é segredo pra quem acompanha essa história há meses: tudo que depende de pedir dinheiro emprestado pra plantar segue sentindo o peso do juro alto de Dona Selita, enquanto só a lavoura mais resistente — grão e poço de petróleo, que não precisam tanto de financiamento — continuou puxando o carro sozinha.
E, pra fechar a semana com uma boa notícia no meio de tanta novela: mesmo com porteira balançando de um lado e fechando do outro, Seu Louro conseguiu vender lá fora mais do que o esperado — o saldo do mês veio bem mais gordo do que qualquer analista tinha calculado, prova de que uma roça bem plantada arruma comprador mesmo quando a vizinhança está em polvorosa.
Quid inde? Uma fazenda que depende de um único portão pra escoar a colheita vive na corda bamba: basta um vizinho amolecer o gênio que outro, do lado oposto do mapa, resolve fechar o dele sem sequer mandar recado antes. Sobrevive melhor quem planta variado e tem porta pra todo lado — e quem, mesmo com o juro puxando o freio, ainda garante um pé de meia de sobra no fim do mês.
* Livre alegoria sobre a semana de 30 de agosto a 5 de setembro de 2026: no front comercial com os Estados Unidos, o ministério da Fazenda sinalizou que novas rodadas de negociação sobre o tarifaço estão previstas para as próximas semanas, com relatos de que o próprio presidente americano teria orientado a equipe a buscar um acordo com o Brasil, e o vice-presidente Alckmin declarou otimismo com uma solução "ganha-ganha". No mesmo período, a União Europeia anunciou a suspensão das importações de carne bovina brasileira a partir de quinta-feira (3/9). Já no campo doméstico, o IBGE informou que o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre ante o primeiro (dessazonalizado), pouco acima da expectativa de mercado (0,4%), mas menos da metade do avanço de 1,1% do trimestre anterior, confirmando a perda de fôlego da atividade — crescimento puxado pela agropecuária (+2,8%) e pela indústria extrativa (+3,4%, com petróleo e gás), setores menos sensíveis ao juro alto. Na balança comercial, as exportações somaram US$ 33,2 bilhões em agosto, levando a um superávit de US$ 7,4 bilhões, acima da estimativa média dos analistas. O Boletim Focus manteve a projeção do câmbio para o fim de 2026 em R$ 5,20 e reduziu ligeiramente as projeções de IPCA (para 5,01%) e PIB (para 1,92%) do ano.
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