Na Vila Sossego, Dona Selita cortou um quartinho de ponto — o quinto corte seguido desde que começou a soltar a corda, lá no ciclo que já dura mais de meio ano. O juro local foi de 14% pra 13,75%. Mas, como já é praxe dela, veio corte com cara séria: nada de prometer mais alívio na próxima reunião, que só volta a acontecer em novembro. "Vamos com calma, olhando cada preço que aparecer pela frente", foi o recado, mais ou menos assim.
Do outro lado da cerca, na cidade grande, seu Trombone fez o oposto: subiu o juro dele em um quartinho de ponto, a primeira alta em três anos inteiros — desde que ele mesmo assumiu a cadeira, aliás, nunca tinha subido nada, só segurado. A decisão saiu sem um voto contra, todos os sócios concordando. A explicação foi direta: o preço lá andava "alto demais, por tempo demais demais", nas palavras dele. E teve um detalhe e tanto: o próprio coronel Tio Sam — aquele que colocou seu Trombone na cadeira, lá atrás — andou reclamando publicamente que não queria alta nenhuma. Seu Trombone e os sócios subiram o juro do mesmo jeito, sem se abalar com a bronca do padrinho. E, pra quem esperava alívio depois dessa primeira subida, veio mais um recado seco: de dezoito sócios que dão palpite sobre o futuro, dezesseis já sinalizam que deve ter mais uma alta ainda esse ano.
Reparem no contraste bonito dessa história: na mesma tarde, no mesmo relógio, uma praça soltou a corda e a outra apertou — cada uma respondendo ao próprio preço, à própria colheita, à própria guerra distante que segue empurrando o combustível pra cima do lado de lá. Nenhuma delas se importou muito com o que a vizinha estava fazendo. Dona Selita não corta pensando em seu Trombone, e seu Trombone não sobe pensando em Dona Selita — cada um decide olhando só pro próprio quintal, mesmo sabendo que o efeito de um sempre acaba escapando pela cerca e chegando no outro.
Quid inde? Duas economias vizinhas podem girar a manivela do dinheiro em direções opostas no mesmíssimo instante, e ainda assim as duas estarem certas — cada uma lendo direito o próprio termômetro. E fica a lição menor, mas nada desprezível: até quem coloca o banqueiro na cadeira nem sempre consegue dizer pra que lado ele vai virar a manivela quando chega a hora.
Livre alegoria sobre a semana de 13 a 19 de setembro de 2026: na quarta-feira (16/9), o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano — quinto corte consecutivo do ciclo —, sinalizando cautela e dependência de dados para os próximos passos, com a próxima reunião prevista apenas para novembro. No mesmo dia, o Federal Reserve elevou os juros americanos em 0,25 ponto, de 3,50%–3,75% para 3,75%–4,00%, em decisão unânime — a primeira alta desde 2023, revertendo cinco reuniões seguidas de estabilidade e ocorrendo apesar da resistência pública do presidente Donald Trump à medida. O presidente do Fed, Kevin Warsh, justificou a decisão afirmando que a inflação americana está "muito alta há muito tempo"; as novas projeções do Comitê elevaram a mediana esperada para os juros no fim de 2026 para 4,1%, com 16 dos 18 participantes sinalizando pelo menos mais uma alta ainda este ano.
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