Mês passado a gente contou aqui como um desconto na conta de luz ajudou a derrubar o preço da feira e deu a Dona Selita confiança de sobra pra cortar o juro dela. Pois esse mês veio a parte da história que todo mundo sabia, no fundo, mas ninguém gostava de lembrar: aquele desconto era emprestado, não de graça — e a conta, mais cedo ou mais tarde, cobraria de volta.
Explico rapidinho pra quem não acompanhou: a usina do rio grande, dona da represa que ilumina a vila inteira, tinha sobrado dinheiro de um acerto de contas antigo e resolveu devolver uma fatia pro povo, batendo direto na conta de luz de agosto. Foi festa — a conta veio bem mais barata, o preço da feira caiu de surpresa, todo mundo comemorou junto. Só que era presente de vez única, não promessa de conta barata pra sempre.
Chegou setembro, o presente acabou — e, sem ele, a conta de luz simplesmente voltou ao tamanho normal. Só que, comparada com o mês anterior (que estava artificialmente baixo), pareceu ter disparado: mais de 7% de alta só na luz. Somando um tomate que ficou 20% mais caro e a passagem que também subiu, a prévia do preço do mês veio em 0,70% — quase o dobro do que os feirantes mais experientes tinham calculado.
E aí vem a parte mais engraçada da semana: na mesmíssima manhã em que essa notícia caiu como balde de água fria sobre a vila, chegou aviso de bem longe, lá do tal vale da velha guerra do poço — os dois lados finalmente se sentaram numa mesa de conversa, numa cidade distante, e o preço do combustível, que vinha subindo sem parar, deu uma boa recuada. Duas notícias que, normalmente, costumam andar de mãos dadas — combustível caro puxa preço de tudo pra cima — resolveram, dessa vez, ir cada uma pro seu canto, no mesmo dia, deixando os feirantes coçando a cabeça sem saber qual das duas explicações confiar.
A ata da última reunião de Dona Selita, publicada dias antes desse susto, já vinha com tom cauteloso, repetindo que o preço geral ainda corre acima do que a vila persegue e que as expectativas seguem elevadas. Agora, com o solavanco de setembro no colo, os feirantes mais antigos brigam sem chegar a acordo: uns acham que ela ainda vai cortar de novo em novembro, outros já apostam que ela prefere segurar a mão dessa vez. E tudo isso acontece bem na última semana antes da eleição do novo chefe da vila — o que deixa cada centavo que sobe ou desce sendo lido com uma lupa a mais na mão.
Quid inde? Um desconto de uma vez só nunca é o mesmo que preço mais barato pra sempre — e quem comemora a queda sem perguntar de onde ela veio corre o risco de levar o susto contrário, do mesmo tamanho, assim que o presente acabar.
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*Livre alegoria sobre a semana de 20 a 26 de setembro de 2026: o IPCA-15 de setembro veio em 0,70%, revertendo a deflação de 0,40% de agosto e quase dobrando a mediana esperada pelo mercado (0,53%), impulsionado sobretudo pelo fim do Bônus de Itaipu — o desconto temporário creditado na conta de luz em agosto —, que fez a energia elétrica residencial subir 7,42% no mês. O acumulado em 12 meses avançou de 4,24% para 4,47%. No mesmo dia, o petróleo Brent recuou de cerca de US$ 106 para perto de US$ 98 o barril, em meio a notícias de negociações em Nova York envolvendo o conflito no Oriente Médio. A ata do Copom, divulgada nos dias anteriores, manteve tom cauteloso quanto ao ritmo de novos cortes da Selic (em 13,75% desde 16/9), e o mercado ficou dividido: parte dos analistas ainda projeta cortes em novembro e dezembro, enquanto outra parte já cogita manutenção na próxima reunião. O dólar fechou a semana em alta de 0,81%, a R$ 5,1991, embora ainda acumule queda de 5,51% no ano. A semana também marcou a reta final antes do primeiro turno das eleições presidenciais.
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